quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Criador de problemas

ESCRITO POR BRENDA SHAFFER
Será que Washington não aprendeu nada com a Geórgia e a Ucrânia?Nagorno-Karabakh, independentemente da distância, é a próxima frente na campanha da Rússia de reconstruir seu império perdido. 

ssc
A Ucrânia não é o único lugar onde a Rússia está criando problemas. Desde a queda da União Soviética em 1991, Moscou tem rotineiramente apoiado os separatistas nos estados fronteiriços, a fim de coagir esses estados a aceitarem seus ditames.

Sua mais recente campanha desse tipo está acontecendo no Sul do Cáucaso. Nas últimas semanas, Moscou parece estar exacerbando um conflito de longa data entre a Armênia e o Azerbaijão enquanto atua como o senhor supremo da pacificação para os dois lados. Na primeira semana de agosto, cerca de 40 soldados armênios e azerbaijanos foram mortos em confrontos perto da fronteira, pouco antes de uma reunião de cúpula convocada pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin.
O sul do Cáucaso pode parecer distante, mas a região faz fronteira com a Rússia, o Irã e a Turquia, e controla uma rota vital de oleodutos e gasodutos que escoam da Ásia Central para a Europa sem atravessar a Rússia. As autoridades ocidentais não podem se dar ao luxo de deixar que outra parte da região seja absorvida por Moscou – como fizeram quando a Rússia separou a Ossétia do Sul e a Abcásia da Geórgia, em uma guerra curta em 2008, e quando a Rússia tomou a Crimeia da Ucrânia este ano.
O conflito entre a Armênia e o Azerbaijão não é novo. De 1992 a 1994, houve uma guerra para decidir qual ex-República Soviética controlaria a região autônoma de Nagorno-Karabakh, região montanhosa com grande população de cristãos armênios e cerca de 90 mil habitantes dentro das fronteiras do Azerbaijão de maioria muçulmana.

O conflito quase sempre tem sido enquadrado como "étnico", mas Moscou tem alimentado os antagonismos. Essa guerra chegou ao fim com a força militar armênia, integrada com a força militar russa, ficando responsável pela zona. Ela já matara 30 mil pessoas e criara mais um milhão de refugiados.

Mesmo hoje, a Armênia controla quase 20% do território do Azerbaijão, compreendendo boa parte de Nagorno-Karabakh e várias outras regiões adjacentes. Apesar de um acordo de cessar-fogo desde 1994, ocasionalmente surgem hostilidades, e as tropas russas controlam a defesa aérea da Armênia, assim como elementos importantes da economia e da infraestrutura do país.

Por três vezes na década de 1990, Armênia e Azerbaijão assinaram acordos de paz, mas a Rússia encontrou maneiras de sabotar a participação da Armênia (em 1999, por exemplo, um jornalista descontente, suspeito de ter recebido ajuda de Moscou, assassinou o primeiro-ministro da Armênia, o presidente do Parlamento e outros funcionários do governo).

Um conflito não resolvido – um "conflito congelado", como a Rússia chama – dá às forças russas um pretexto para entrarem na região e coagirem os dois lados. Assim que as forças russas se estabelecem, nenhum dos lados consegue cooperar mais intimamente com o Ocidente sem medo das represálias de Moscou.

A mais recente violência precedeu uma reunião de cúpula em 10 de agosto em Sochi, na Rússia, quando Putin tentou um acordo para empregar mais "pacificadores" russos entre a Armênia e o Azerbaijão. Em 31 de julho, os armênios iniciaram um ataque surpresa e coordenado em três locais. O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, e o ministro da defesa estavam fora do país e Aliyev ainda não tinha confirmado a participação na reunião de cúpula.

Contudo, o presidente da Armênia, Serzh Sargsyan, havia confirmado; é improvável que a sua força militar iniciasse tal provocação sem ter se coordenado com a Rússia (a reunião continuou, sem resultados concretos).

Antes da reunião, Moscou já vinha apertando o controle no Sul do Cáucaso, com o apoio tácito por parte da Armênia. No fim do ano passado, o governo da Armênia desistiu das aspirações de assinar uma parceria com a União Europeia e anunciou, em vez disso, que ingressaria na unificação das alfândegas de Moscou.

A retomada da guerra aberta daria à Rússia uma justificativa para enviar mais tropas, sob pretexto de manter a paz. Desestabilizar o sul do Cáucaso também poderia sabotar um grande projeto de gasoduto, fechado em dezembro do ano passado, que poderia reduzir a dependência da Europa do combustível russo.

Não obstante, espantosamente, as autoridades americanas reagiram à luta atual dizendo que "acolhem" a reunião de cúpula patrocinada pela Rússia. Será que Washington não aprendeu nada com a Geórgia e a Ucrânia?

Para evitar o agravamento do conflito no Cáucaso, e para negar a Putin o pretexto para uma nova apropriação de terra, o Presidente Obama deveria convidar os líderes do Azerbaijão e da Armênia para Washington e mostrar que os EUA não abandonaram o Sul do Cáucaso. Isso estimularia os lideres a resistirem à pressão da Rússia. A sessão da Assembleia Geral da ONU, que será aberta nesta semana, parece ser um momento excelente para tal manifestação de apoio.

Washington deveria culpar a Rússia e resistir a qualquer suposta resolução do conflito que leve ao posicionamento de mais frotas russas na região. E o Ocidente precisa de uma estratégia para prevenir que Moscou tome outra região de fronteira. Nagorno-Karabakh, independentemente da distância, é a próxima frente na campanha da Rússia de reconstruir seu império perdido. Deixar que o Sul do Cáucaso perca sua soberania para a Rússia seria um golpe mortal na já enfraquecida capacidade americana de buscar e de manter alianças na antiga União Soviética e além.



Brenda Shaffer 
é professora de ciências políticas da Universidade de Haifa.
(The New York Times News Service/Syndicate)

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