segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A resolução e a realidade

EditorialGAZETA DO POVO - PR - 09/11/2014

Totalmente descolado das preocupações dos brasileiros, texto da Executiva Nacional do PT insiste em conceitos anacrônicos

Na noite em que Dilma Rousseff venceu o segundo turno da eleição presidencial, ela falou da necessidade de diálogo com a oposição e do respeito à posição de dezenas de milhões de brasileiros que votaram em seu adversário, uma fala que mereceu nossos elogios. No entanto, poucos dias depois, a Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores emitiu uma “resolução política” que contraria todo o discurso da presidente reeleita, ao insistir na divisão do país e pregar o confronto aberto com os setores da sociedade que não aderiram ao projeto petista. 

Enquanto Dilma, na noite de 26 de outubro, dizia que “em lugar de ampliar divergências, de criar um fosso, tenho forte esperança de que a energia mobilizadora tenha preparado um bom terreno para a construção de pontes”, a resolução petista, datada de 3 de novembro, associa os 51 milhões de brasileiros que votaram em Aécio Neves com “o machismo, o racismo, o preconceito, o ódio, a intolerância, a nostalgia da ditadura militar”, repetindo acusações que, se já não tinham fundamento quando dirigidas a Aécio, menos sentido ainda fazem em relação a seus eleitores. Assim, talvez inconscientemente, passa a valer a ideia de que quem não votou no PT seria um portador de preconceitos deploráveis.

A insistência na retórica do “nós contra eles”, insuflada por Lula ao longo não só da última campanha, mas dos 12 anos de petismo no poder, se baseia na adesão a um conceito anacrônico, o da “luta de classes que aqui se trava sob as mais variadas formas”, segundo expressão do documento petista. É exatamente essa explicação infundada e superficial da lógica do funcionamento da sociedade que cria divisões profundas, seja socioeconômicas – entre ricos e pobres, patrões e empregados –, seja raciais ou de gênero. Divisões que o documento petista tenta atribuir à oposição, quando na verdade são fomentadas por essa mentalidade da “luta de classes”.

E o resultado final dessa visão petista, o documento não esconde, é a “hegemonia”, ou seja, a dominação completa do Estado nos moldes do Moderno Príncipe gramsciano, que será atingida por meio do tripé formado por “ação institucional, mobilização social e revolução cultural”. É por isso que a resolução insiste em plataformas específicas como uma “Lei da Mídia Democrática” – praticamente copiando o nome da Lei de Meios argentina, que amordaçou a imprensa oposicionista do país vizinho – e o plebiscito para uma Assembleia Constituinte da reforma política, contornando o Congresso Nacional em uma manobra reveladora: enquanto se exalta a decisão do povo que conduziu Dilma a um segundo mandato, despreza-se a vontade desse mesmo povo que também elegeu uma “maioria conservadora da Câmara dos Deputados”, ou seja, o voto popular só é digno quando dado a um determinado partido.

Como afirmamos na segunda-feira, trata-se de um distanciamento total das preocupações mais urgentes do brasileiro, que vê a economia se deteriorando e as conquistas sociais murchando – não é à toa que o governo deliberadamente adiou para depois do segundo turno a divulgação de um rombo recorde no Tesouro Nacional e do crescimento do número de miseráveis. Sobre isso não se diz praticamente nada na resolução. E, mesmo sobre a corrupção, é sintomático que a Executiva Nacional não fale propriamente no combate a essas práticas nocivas, e sim em “ser muito mais proativo no enfrentamento das acusações de corrupção, em especial no ambiente dos próximos meses, em que setores da direita vão continuar premiando delatores” – ou seja, responder às denúncias parece mais importante que o combate à corrupção em si.

Estamos certos de que o conteúdo dessa resolução não traduz o que pensa a esmagadora maioria dos eleitores de Dilma. Nossa esperança é a de que as mentes mais esclarecidas dentro do PT percebam isso e se manifestem com coragem, seguindo a própria presidente, que se distanciou do documento em entrevista na quinta-feira. Entre o discurso conciliador de Dilma e o tom belicoso desse documento, é o primeiro que precisa prevalecer, e os petistas que lutarem por isso – inclusive na reunião do Diretório Nacional do PT, no fim deste mês – estarão prestando um valioso serviço ao país.

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