quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Tiros, opressões e minorias

Na última sexta-feira aconteceu um grande tiroteio a poucos metros da minha casa. Preocupou-me a possibilidade de ser atingido por uma bala perdida. Minha viúva ficaria absolutamente desamparada, porque não conto com representação alguma na sociedade civil. Não gozo de privilégios, pois minha minoria, a dos homens-brancos-católicos-heterossexuais-estudiosos-trabalhadores é a mais desorganizada e desmobilizada de que se tem notícia; por conseguinte, é a mais menosprezada e avacalhada. Mas eu bem mereço (ao menos é o que depreendo das manifestações das organizações representantes das supostas minorias e que se pretendem opostas à minha minoria). Vejamos.

1 - Trato minha noiva como uma princesa, minha mãe como uma rainha e as demais mulheres como os seres especiais que são. Contudo, nasci homem e, portanto, sou naturalmente um opressor, digno de pouco mais do que a morte.

2 - Sou totalmente contra o conceito de divisão de raças. Entendo que há apenas uma raça, a humana. Todavia, com minha branquidão medonha, já saí do ventre materno oprimindo, escravizando à distância (no tempo e no espaço) e com uma enorme dívida histórica.

3 - Se ser branco me garante a herança maldita de pagar por algo terrível, mas que não cometi (a saber, a escravidão, que, em verdade, foi perpetrada por brancos, negros, amarelos, pardos, vermelhos etc. entre si e contra brancos, negros, amarelos, pardos, vermelhos etc.), por outro lado, ser católico não me garante a herança bendita de ser da religião que organizou e sistematizou o que ora se conhece por caridade, hospital, universidade, método científico etc. A cada sinal da cruz, oprimo muito mais do que os “militantes” do Estado Islâmico o fazem a cada degola.

4 - Respeitar as opções sexuais de cada um, por entender que se trata de matéria de foro íntimo, não me exime da culpa de fazer parte desta sociedade homofóbica. Não basta respeitar, é necessário aplaudir, divulgar e praticar o homossexualismo. Pelo que tenho visto, é impossível ser heterossexual sem ser homofóbico – “O quê!? Você não tem desejo de dar o bumbum? HOMOFÓBICO!”. Dia desses, um hétero-barbeiro atravessou uma preferencial e bateu no homo-carro de um gay – HOMOFOBIA! Noutro dia, um gay que só estudara até o ensino médio perdeu sua homo-vaga de CEO em uma multinacional para um hétero-doutor em gestão – HOMOFOBIA!! A cada ano, dezenas de gays são vitimadas por hétero-doenças, como o câncer – HOMOFOBIA!!!

5 - Porque vou à universidade para estudar e, ABSURDO!, estudo também por conta própria, sou um terrível opressor da gente linda e do bem que compõe o movimento estudantil – pessoas que, dos ambientes escolares, conhecem apenas a sala de matrícula, o bar e os matagais (onde, a despeito de haver fumaça, não há fogo).

6 - Por fim, no labor, oprimo em duas frentes. Como trabalhador assalariado, oprimo sindicalistas e todo o corpo do grevismo, digo, do funcionalismo público, pouco afeitos à labuta. Como autônomo, empreendedor, oprimo todos aqueles que entendem que o Estado deve prover seu sustento e odeiam empreendedores – ignorando que são estes (os empreendedores) e aqueles (os trabalhadores cumpridores) que sustentam o Estado, os sindicalistas, os “estudantes” profissionais e toda a gama de privilégios de que dispõem os grupos de pressão, travestidos de defensores de supostas minorias.

Está claro agora porque eu deveria morrer no mais absoluto abandono? Se um projétil acidentalmente me atingisse, não irromperiam grandes passeatas, viaturas não seriam viradas, cidades não seriam destruídas e lojas não seriam saqueadas por um mundo melhor. Minha família choraria sozinha, sem ter uma ONG ou um “coletivo democrático e popular” para chamar de seu. Afinal, eu seria apensa mais um dentre os 60 mil brasileiros mortos pela bandidagem no ano. Não teria o mesmo glamour de morrer na condição de gay, por exemplo. Pois, bem sabemos, não importa se o gay foi morto por um seu companheiro destemperado, por aquela mesma bandidagem que não está nem aí para opção sexual ou por uma inexorável doença; quem acompanha o noticiário sabe que tudo isso aí é homofobia e merece grande comoção. Se um meliante me matasse, ele seria tão-somente uma pobre vítima do sistema cometendo erros de que não tem culpa. Se um meliante mata um gay, bom, aí ele é alçado à condição de homofóbico, machista, medieval, opressor do capital especulativo internacional e Torquemada da socialização das rabetas.
Ainda bem que nenhuma bala revolucionária me vitimou e eu posso seguir por aí, dos píncaros de meu isolamento, nesta minha minoria ignorada, a minoria do indivíduo, oprimindo as categorias desamparadas e vulneráveis, que contam apenas com leis especiais, com o apoio da mídia nacional e com repasses estatais milionários para suas utilíssimas causas (Afinal, que é a guerra civil em que vivemos ante piadas com gays e gritos racistas em estádios de futebol?).

* * *

PS padrão para este tipo de texto: à incansável patrulha, é sempre importante esclarecer que não tenho absolutamente nada contra os indivíduos que compõem as [supostas] minorias citadas ou tangenciadas neste texto. Meu problema é com o ativismo oportunista, que caça vantagens em função de preferências que deveriam limitar-se à vida íntima das pessoas (no caso das “minorias sexuais” [sic], por exemplo) e de características físicas e naturais que não determinam nada per se (como a cor da pele ou o sexo do indivíduo). Para mim e para você que concorda que 1 + 1 = 2, oferecer vantagens competitivas a alguém em função de sua cor de pele é pressupor que quem possui essa cor de pele é menos capaz do que outros que possuem outras cores de pele. Para os militantes do outro mundo possível, em que desavenças se resolvem no paredão ou na Sibéria, as cotas raciais são o ápice da bondade humana, uma reparação histórica inegociável (como se não fossem negros os governantes africanos que capturavam seus conterrâneos e vendiam aos europeus e como se os brancos europeus não tivessem sido escravizados oito séculos antes por hordas islâmicas, repletas de negros do Norte da África).
Pressões grupais não são menos insensatas que disputas de torcidas de futebol organizadas, nas quais a "vitória" é de quem grita mais alto. É a guerra de todos contra todos, resultado direto da confusão social engendrada por doutrinas esquerdistas, que não enxergam seres humanos como seres humanos, mas como classes, gêneros, cores, religiões etc., que devem digladiar-se e levar adiante a dialética do ressentimento marxista.
No fim, quem perde é sempre a principal minoria existente: o indivíduo (de qualquer cor, raça [sic], sexo, etnia etc.).

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