sábado, 12 de outubro de 2013

A LAGOA E OS POMBOS

Dona Maria de Venância - Do curta-metragem Caminho de Feira.

Ao velho Junco, Sátiro Dias/BA.
Ainda se debruça na janela e mostra seu admirável rosto negro, dona Maria de Venância. Seu olhar entre lágrimas eleva-se as recordações das missas tridentida e sua introdução sacra: Introibo ad altere Dei, ad Deum qui leatificat juventutem meam... é uma lembrança feliz e saudosa. Hoje ela foi à feira livre, tantas recordações dos tempos de menina, as barracas enfileiradas e coloridas, os vendedores de pomadas com seus autofalantes e suas serpentes venenosas, e notou, com pesar, que nada era como dantes, falta um tom de graça e mistério, como havia antes. Assim parou em sua janela e reviu o velho Junco.
Vaqueiros desciam da Casa da Torre, comandados pelo coronel herdeiro Guilherme Dias d’Ávila, para invadir as terras dos Goveias. Ainda está lá a estrada de barro por onde chegavam os vaqueiros. Do alto se avista uma lagoa no centro de um vale verdejante, o lugar cheio de pássaros de todas as espécies, predominantemente as legiões de pombos. Era uma lagoa límpida cercada por verdejante gramado e árvores frutíferas onde se aninhavam os pombos. Era a Lagoa das Pombas. Ao redor dela paravam os vaqueiros cansados de suas viagens.
À noite, sobe a luz e o calor de uma fogueira, chegava Guidório, o melhor sanfoneiro da região e seus acompanhantes com o zabumba e o triângulo. As mocinhas prestes a se entregar ao matrimônio, vestidas da mais cara chita e impregnadas pelo aroma da alfazema, se punham a dançar elegantemente na roda e a encantar os rapazes em redor. O samba que vinha dos terreiros dos quilombos e das senzalas.
Lá pelas tantas da noite ainda tinha o melhor espetáculo: era o Drama. Homens fantasiados de mulheres e estas de homens para interpretarem papeis engraçados: o padre que em confissão beijava a mocinha; a mulher que reclama do marido beberrão; o espírito incorporando na mulher vadia; a cigana; a doida apaixonada... Tudo em versos cantados, músicas centenárias que alegraram os senhores dos engenhos por essas bandas e depois serviram de festas para os escravos recém-libertados.
Antes que o sol nascesse já se podia ouvir o tinir das enxadas sobre as pedras. Era hora de Adjutório, a festança onde os amigos se reuniam para ajudar um vizinho na capina da terra, embalados ao som dos versos alegres e dos cantadores. Meio dia o bom caruru com vatapá e galinha caipira, feita pelas mãos da velha Venância, que aprendera com sua bisavó, gente dos navios negreiros. No tempo da colheita o milho seco do paiol era jogado no terreiro, ia para a Despalha do Milho, amigos e vizinhos aquecidos pelo quentão do senhor Chico, cantavam versos e contavam piadas enquanto grãos de milhos se espalhavam pelo chão.
Na lagoa tinha o tempo das mulheres e dos homens. Pela manhã as lavadeiras com suas trouxas desciam cantarolando, lavavam e se banhavam tranquilamente: ninguém ousaria importuná-las. Quando o sol estava se pondo, desciam os homens contando histórias das caças, do gado, da roça e outras lorotas para o tempo passar, enquanto isso, eles se banhavam. Ainda tinha uma lei severa e obedecida: os banhos nunca seriam na cabeceira da lagoa, lá só a água de beber se podia apanhar. Lavar roupas e banhar-se era coisa pra corredeira.
Era assim. Maria de Venância ainda se lembra. O seu avelhantado bisavô contava tudo. Chegara a cavalo, seu jaleco e alforje de couro testemunham. Numa seca medonha que forçava os sertanejos a fugir para os seringais da Amazônia, ele achara um oásis bem pertinho do recôncavo, num vale arejado e cheio de vida.  Ao se aproximar da lagoa revoaram os pombos; ele olhou em redor e concluiu: este é o meu lar.

Esta última lágrima de dona Maria de Venância quer saber onde está a lagoa e os pombos. Os Adjutórios, a Despalha, o Drama, o Leilão Cantado. As festas e a alegria deste povo. Esta última lágrima quer saber quem deu ordens para despejarem o esgoto na lagoa, para queimarem a mata e para expulsarem de lá os pombos, per omnia sæcula sæculorum.

9 comentários:

  1. Muito bom... Adorei... Quem viveu um tantinho dessa outrora mesmo que na forma de imaginação ao ouvir seus avós contarem suas história saberá entender tamanha emoção que foi ler esse texto!

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    1. Mis, obrigado pela participação! Volte sempre! Beijos!

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  2. Que maravilha! Há muito gostaria de ler algo que contasse um pouco da história da velha Lagoas das Pombas, a "Pikuí Upá" dos índios antigos moradores da região. Parabéns ao autor.

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  3. Uma certa vez, no meu local de trabalho, recebi a visita do escritor e cineasta baiano-argentino Carlos Pronzato e o fiz escrever um conto no qual falasse das terras do Junco e da Lagoa das Pombas. Forneci para ele as palavras em tupi "abanhe'enga" e o pus sentado diante do computador. Daí surgiu o conto "O bandeirante iluminado" que para mim ficou maravilhoso e muito comovente. E fez muito sucesso entre os meus amigos indígenas.

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  4. Abimael.
    Eis um CONTO que relata de forma quase que "fotográfica" a real história da Lagoa e os Pombos, passada por Maria de Venância (minha primeira professora) através de suas saudosas recordações.
    Digo que essa rica narrativa me conduziu ao inesquecível Junco de outrora, cheio de paz, alegria, simplicidade e contentamento.
    Visite-me em www.ticocruz.blogspot.com

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