quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Um dízimo para o diabo

Eram dez e quarenta da noite quando saímos de Alagoinhas, naquela segunda-feira preguiçosa de 26 de setembro de 2011.
Estava feliz, tinha recebido as notas das provas nas quias fui muito bem. Coloquei os fones no ouvido e comecei a curtir Lost, de Bruno Mars. Constatava que a noite estava fria e que o motorista corria um pouco conduzindo o ônibus. Meus colegas se acomodavam para cochilar, afinal enfrentaríamos mais uma viagem de 110 km até a cidade de Sátiro Dias.
Algumas lembranças vagas povoavam minha mente enquanto eu olhava a estrada escura la fora. Fiquem pensando na função dos soldados do exército que encontramos no posto da Polícia Federal: estariam assumindo o papel da PF? Estariam dentro da competência que o Estado Brasileiro atribui? Estariam fiscalizando as estradas? Faziam pesquisas ou outros tipos de serviços, mas qual a finalidade? Estariam ali em uma missão especial ou por pura falta do que fazer?
Especialmente esta noite parecíamos sozinhos na estrada. A noite estava mais escura que de costume, não havia lua, atravessávamos quilômetros sem vê uma viva alma guiando qualquer carro que fosse. Avistei de longe uma luz de farol que entrava em uma plantação de eucaliptos. Quando passei pelo lugar, tentei ver no meio da escuridão um sinal de alguém, algum carro ou moto dentro do mato. O ônibus seguia e eu voltei a lembrar de outras coisas como da vez em que vimos um carro acidentado dentro do mato à beira da estrada. Pensei que ali poderia estar se repetindo a mesma coisa, mas nada que fosse possível ver.
Voltei a ouvir o Bruno, agora tocava Talking to the moon. A música me ajuda a relaxar. Fechei os olhos e procurei aquietar meus pensamentos para poder dormir. Adormecia quando ouvi um estampido, o estalo era conhecido, estrondo seco, ouvi alguém dizer: o pneu estourou. Pensei comigo: não foi o pneu, pois o carro teria perdido parte do controle. Um farol se aproximava rápido do meu lado esquerdo e eu pude ver uma mão armada para fora de um uno preto. Era um assalto? Rapidamente o uno tomou nossa frente e mais outras armas surgiram apontadas para nós. Dois colegas precipitaram para o fundo do carro. Fiquei alim mesmo, como se estivesse vendo um filme de ação, a primeira imagem do carro preto com placa encoberta e com homens descendo e apontando as armas para a frente do ônibus, ainda está gravada em minha mente como se fosse agora. Ouvi vozes dos colegas rezando e outros confirmando: é assalto. Tentei orar o Pai Nosso, mas não me lembrei dos dizeres, no pensamento pedi a Deus que cuidasse de nossas vidas. 
O motorista não teve tempo de colocar o ônibus no acostamento. Três bandidos saltaram do uno apontando armas para o carro e dando ordens para que abrisse a porta. Ouvi um deles perguntar se havia policial a bordo. Não havia. Quando a porta foi aberta entraram anunciando assalto, dando ordens para entregar os pertences, reclamando da demora do motorista em abrir a porta, soltando palavrões. Dois deles adentraram e um ficou na porta com o motorista apontando a arma pra ele e dizendo pra ele não dar sinal, para andar a 60 km, pra não fazer besteira por que só estavam fazendo o "trabalho" deles.
Um deles me abordou exigindo a entrega de celular, dinheiro e o que tivesse de valor. Entreguei o que tinha. Lembrei de pedi que deixassem o chip, informei que não tinha dinheiro, só cartão de crédito, tomaram. Mandaram que eu ficasse com as mãos na cabeça e foram ao fundo do carro onde meus colegas estavam. Desceram gritando que aquilo não era filme, que era vida real. As meninas começaram a chorar e os meliantes diziam que não precisava chorar, era só entregar o que tinha que ninguém sairia machucado (como se isso servisse de consolo).
Um dos colegas havia se livrado do celular e de tudo que tinha de valor. Os criminosos não aceitaram: se todos tinham alguma coisa pra dar, por que somente ele não tinha? O colega tentava se explicar e não era atendido. Foi humilhado e ameaçado. Saíram de lá mandando que o motorista parasse devagar e que não fizesse besteira outra vez na hora de abrir a porta. O pesadelo estava terminando.
Fui vê se estava todo mundo bem apesar do susto. Ficamos ali consolando uns aos outros. Cada um dando sua versão dos fatos, daquilo que perceberam. Entre tudo isso surge uma constatação curiosa: por pouco não mataram o colega que se livrou dos pertences. Todos nos voltamos para ele dizendo que não poderia ter feito aqui, que o risco foi muito grande, que não vale a pena defender objetos de valor em detrimento da vida. Pareceu enfim que é pecado mortal não ter uma contribuição para os meliantes, um dízimo para o diabo.

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