quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Por que eu ensino?

           Resolvi contar o que me levou a ser um professor. Um tempo atrás trabalhei com o AJA, programa de Alfabetização de Jovens e Adultos do Governo do Estado da Bahia. Tive uma aluna que marcou muito o meu trabalho: uma senhora de 85 anos cujo sonho era ler e "assinar o nome". Assumi esse desafio, que não foi fácil, pois a dona Joanita trabalhara durante toda vida na roça, tinha suas mãos calejadas, tão grossas que dificultava seu tato, seus movimentos foram comprometidos depois de sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral, o famoso derrame), sua visão não era mais a de uma garota, tanto é que as aulas eram ministradas a tarde, para aproveitar a luz do sol. Durante sêis meses eu busquei formas de instruír-lhe. Dona Joanita não tinha mais tantas aspirações na vida e constantemente era desestimulada pelos familiares, pois que mais uma vovozinha queria da vida? Diziam que estava na hora de dona Joanita descançar. Um dia ela disse sorrindo: - meu fio, eu vou assinar meu nome nem que seja no céu, já cansei de colocar o dedão, morro de vergonha disso. Sua força de vontade era tanta que em pouco mais de dois meses ela escrevia seu nome, reconhecia algumas palavras; seis meses depois, na festa de formatura, ela foi assinar, pela primeira vez, um documento: seu diploma. Dona Joanita veio a falecer três dias depois do evento, mas sua última fala nunca saiu da minha mente: - meu fio, fico muito agradecida por você ter me ajudado, hoje eu me sinto realizada. Foi essa experiência que me motivou a ser o que sou: um professor, convicto de minha missão e responsabilidade na transformação social.
          No ínicio do ano letivo nós, professores, nos debruçamos sobre livros, textos, vídeos, músicas, materiais didáticos, tecnológicos e etc. Ansiosos, sonhadores, imaginativos. Há um mundo novo em nossas mãos e esperamos poder descortiná-lo para nossos alunos. Depois de selecionar os conteúdos, reler o PPP (Projeto Político Pedagógico) da escola, de ver as ementas dos cursos, de examinar cuidadosamente o que cada turma estudou no ano anterior, então preparamos as primeiras aulas e damos a elas um título bonito: DIAGNOSE. Depois de criar as maiores expectativas, começa ver seu castelo desmoronar frente as limitações físicas e técnicas das escolas públicas; começa perder o encanto ao notar a ausência de bibliotecas, quadras, espaços adequados ao desenvolvimento trabalho docente e do aluno. O desencanto se acentua quando percebemos que nossa clientela, os alunos, não estão nem aí para a própria aprendizagem. Eles já chegam nas salas loucos para voltar para casa, fazendo figa por uma aula vaga, torcendo para que o professor adoeça (ah, se praga de aluno pegasse, estaríamos fritos).
          Eu gostaria de ter uma turma chaia de donas Joanitas. Para ela não importava se a cadeira era dura; se tínhamos, às vezes, que estudar na frente da escola para que ela visse os próprios rabiscos; se de sua casa para a escola era muito longe; se o professor, inexperiente, exagerava nas cobranças... dona Joanita ansiava por ver o mundo novo ser descortinado na sua frente e eu faria qualquer coisa para facilitar seu aprendizado. Dona Joanita sentia falta de mim, quando eu não podia ir por conta das chuvas (o lugar era de difícil acesso), quando ficava gripado ou por qualquer outro imprevisto. Dona Joanita não fazia questão de terminar a aula depois do horário, para ela sempre estava sedo. Depois da igreja, a escola era seu lugar preferido. Para dona Joanita cada letra do alfabeto tinha um outro sentido: o "S" se parecia com uma rama de batata, o  "A" se parecia com um cavalete, o "E" se parecia parecia um gancho e assim por diante.
           Foi dona Joanita que me fez sentir o prazer de ensinar e de lá para cá não consegui parar: virou vício. Muitas vezes me questiono sobre o que estou ainda fazendo em sala de aula, pois a missão dos mestres parece intransponível. Vez por outra alguém me procura para agradecer os ensinamentos, coisa rara hoje em dia, mas acontece, e isso me faz acreditar que vale a pena. A parábola da semeadura se aplica neste caso, pois não importa onde cai a semente dos meus ensinamentos, algumas delas um dia irão florescer e dar frutos para se tornarem semeadoras e produtoras de abundância. Se eu conseguir ajudar uma só pessoa, das tantas com as quais trabalho, já me sentirei realizado.

Um comentário:

  1. São pessoas como vc que nos tras um fio de esperança que nossos jovens não se percam na ingnorancia . Apesar do descaso do poder publico, meu respeito a todos os professores . em especial ai no Junco .
    José Francisco - Junco - São Paulo

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