sábado, 11 de abril de 2009

To rindo, mas é séro!

Há dias estamos ouvindo falar das diversas “confusões” que estão acontecendo no carro dos universitários de Sátiro Dias. Ouve-se falar de vandalismo, falta de respeito moral para com outros passageiros, “guerra” de bolinhas de papel, depreciação do veículo, agressões físicas e verbais entre os próprios estudantes ou a passageiros eventuais autorizados, manifestações implícitas ou explícitas de racismo e preconceito, poluição sonora, entre outros. Diversos problemas permeiam essa travessia diária: Sátiro Dias a Alagoinhas, Alagoinhas a Sátiro Dias, dando a entender que o que para alguns é um sacrifício descomunal, para outros, é um mero passeio.
Tudo começou com as bolinhas de papel. Algo inocente e passageiro até então, chegava a ser divertido, passava o tempo, descontraia, em suma normal para uma turma de jovens ávidos por aventuras. Mas como todo exagero é doentio, ninguém vai aceitar ser alvo a vida toda, todos os dias, durante ida e vinda de uma viagem de mais de 100 km, que se repetem todos os dias numa rotina enfadonha movida unicamente pela necessidade de estudar, então virou confusão.
Imagine aquelas crianças mimadas que quando vê que um adulto sorriu, aprovando sua brincadeira, ela incrementa a ponto de não saber mais a hora de parar até que se machuca e tudo vira lágrima, pois bem, assim foi. As barreiras dos limites se foram: tão bonitinho ver alguém chateado ao receber uma chuva de bolinhas de papel... a criançada universitária se divertia. Não tinha cristão para entrar no carro e não ser vítima; todos sentados, quietos, o carro entra em movimento, risinho daqui, risinho dali, alguém rasga uma folha de papel, ops, o caderno caiu e soltou a folha, que pena né? Vamos ter que jogar uma folha de papel no lixo, pois é, rasga, enrola. Ai! Que foi? Jogaram uma bola de papel em mim... risos. Ai, ai? O que foi? Jogaram duas... risos. Ai, ai, ai! Três... hum. E assim vai. Não se estresse, é só uma brincadeirinha pra distrair. Mas logo comigo? Não, é que não tem cesto no carro, e nós achamos tão bonitinho você dizendo “ai, ai, ai”... risos e mais risos.
Mas brincar assim é que nem fumar maconha, além de viciar, tem hora que não faz mais efeito e é necessário usar algo mais forte, e mais forte até uma overdose. Alem do mais aquele modelo de brincadeira se tornou enfadonho até pra quem o promovia. Resolveu-se dar tapinha na cabeça dos visitantes. Deu-se a desgraça. Uma pobre de Deus, primeira vez no carro, por ordem superior, entrou sorridente, deu boa tarde, sentou-se acomodada e feliz porque não ia pagar passagem. Vemos os olhares se entrecruzarem e feições risonhas se combinarem sem precisar de uma palavra só. Minutos depois a senhora já não ria. Não ficava mais acomodada em seu lugar, mudou de posição, ligou para o marido, começou a se estressar. Também, pudera, cada tapa na cabeça que levava, coitada, de nada adiantava pedir pelo amor de Deus, me deixem em paz. Outro dia nos encontramos e ela me falou que aquela foi a viajem onde ela foi mais humilhada em toda vida.
No meio do caminho paramos e pegamos uma jovem mulher. Imaginávamos que fosse estudante. Ao chegar a Inhambupe ela pediu parada e quando ia descer estendeu a mão a pagar a condução, o motorista então perguntou surpreso: você não é estudante não? Porque aqui não se cobra passagem, transportamos estudantes. Admirada e visivelmente chocada, a jovem exclamou: estudantes! Pensei que fossem a uma festa! Estudantes desse jeito? E desceu transtornada, meneando a cabeça. Passei uma semana pensando sobre a reação da jovem. Afinal o que se espera de estudantes universitários? Bom, não me aprofundando nessa questão, em nosso carro você pode esperar bolinhas de papel e tapinhas na cabeça entre outras coisas mais.
Mas a questão era o som. Altíssimo e de péssimo gosto. Embora acredite que gosto não se discute, o litígio é o espaço coletivo, onde há vários gostos há de se convir que respeitar o direito do outro, de não ouvir uma letra ridícula como "Quando ela me vê ela mexe, piri que piri que piri piri piriguete", é uma questão de saúde pública mental. É o mesmo caso da proibição de fumar em lugares fechados porque é nocivo não só à própria saúde, mas também à saúde alheia. Quem escreveu esse lixo é muito inteligente: sabe que o mercado ta cheio de ouvintes, lucro garantido. Entretanto ninguém é obrigado a ouvir “vem meu bem, use e abuse, chupe, chupe, chupe, chupe, chupe, chupe”, o cúmulo da mediocridade. E como se não bastasse, ter que ouvir nas alturas o mesmo repertório durante quatro horas em mais de 200 km (ida e vinda), isso é coisa da prisão de Guantánamo: é tortura com música. Vai ter a mente vazia assim no inferno.
Ser mente vazia ultimamente é até normal, ser burro já virou moda. Falar errado é tão bonito... As pessoas hoje têm mania de dizer que a língua portuguesa é a mais complicada do mundo, só pra justificar a incapacidade de aprender o próprio idioma. Parece que estamos vivendo a era em que o belo é a insipiência. Mas ser burro a ponto de demonstrar atitudes preconceituosas em pleno século XXI, já é caso de polícia. Pois uma pobre coitada que estava acima do peso teve a desdita de pegar carona nesse bendito carro, e sofreu. “Balefa”, é a mistura de baleia com lefa, baleia não preciso definir, “lefa” bom, é a coisa mole, folgada, solta, sem domínio e etc, mas dentro do contexto ela foi chamada de gorda e desajeitada, obviamente. “Balefa” é um termo pejorativo, ofensivo e enfim, preconceituoso. Preconceito, é para mim, a coisa mais podre que a humanidade já concebeu. Racismo e preconceito é fruto da escória da raça humana. Se você é preconceituoso, faça um favor ao bem estar dos seres humanos de mente sadia, morra.
Eu fico com pena dos pobres que acordam às 6 horas da manhã, para ir ao trabalho. Passam o dia no batente e encara a maratona de viagem a partir das 15h40min, depois uma sala de aula, algumas das vezes com péssimos professores, realidade comum nas universidades particulares de Alagoinhas, e chegam em casa às 00h30, de corpo e alma cansados, sem falar em quem estuda no sábado, para completar carga horária. Estas pessoas, que mal tem tempo para cumprir com o dever, não tem tempo para bolinhas de papel, infantilidades imbecis, cargas d’água e babaquice. Essas coisas ficam para quem tem vida ganha.
São coisas desse gênero que vem desgastando o relacionamento entre os acadêmicos. A completa ausência de um espírito solidário. A libertinagem em lugar da liberdade; da aceitação; da tolerância. A ausência de valores de respeitabilidade, do direito ao livre pensamento e à individualidade. O desrespeito às ideologias e vivencias das diferentes personalidades. A falta de liderança, de acordos de convivência, de organização social. O egoísmo sob a premissa da proteção incondicional baseada na crença da propriedade do domínio. A negação definitiva de que o direito próprio cessa face ao alheio. Ilusões descabidas gerando problemas ainda mais descabidos num âmbito de onde ninguém jamais espera.

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