quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O que diziam as estrelas nas noites quentes em Santo Estevão enquanto eu deitado sob os frondosos ramos do tamarineiro as contemplava encantado?

Uma tamarineira na rua Modesto Gusmão, cuidada sempre por minha avó arranjada que se chama Joana, mas é conhecia entre os íntimos, e ela mesmo assim prefere, ser chamada de Rola. Contou-nos certa vez a origem do gracioso apelido “Dona Rola”, que seu pai a levava para a caça dentro do seu alforje, e em retorno da caçada, em vez de tirar rolinhas da sacola, tirava-a como troféu. Assim ficou conhecida, a Rolinha de seu José, hoje, dona Rola, mas nas horas oficiais atende por Joana.
Vó Rola tinha um ciúme danado daquele pé de tamarindo, tanto foi que no dia em que as máquinas da prefeitura vieram fazer a terraplanagem para pavimentação da rua, foi avisada de que como o tamarindeiro ficava quase no meio da rua seria cortado e assim ela abraço-se ao tronco e exclamou: se ele vai, também vou!
Não houve acordo. Vieram fiscais, engenheiros, ordem judicial e o “diabo a quatro” até que o bom senso do prefeito foi-lhe em seu favor. O tamarineiro fica.
Não fosse a atitude corajosa de Vó Rola na defesa do pé de tamarindo, muito se teria perdido de história, porque talvez eu nem lembrasse mais das minhas inquietações com as estrelas e do meu amor pelo tamarindeiro.
Eu e o tamarindeiro tínhamos uma história em comum: costumávamos, à noite, acenar para as estrelas, conta-las, desfazendo o mito das verrugas, pois nunca me nasceu nenhuma, embora eu tanto contasse as formações estelares, a menos que aquela casca grossa do pé de tamarindo fossem as verrugas de nós dois.
Eu gostava mais do Cruzeiro do Sul e sempre achei que o tamarineiro preferia as Três Marias e como gosto não se discute, nunca perdemos tempo em ver quais eram mais bonitas que as outras, a gente simplesmente as admirava.
De vez em quando eu achava que as estrelas queriam dizer alguma coisa pra mim, elas piscavam, ficavam mais acesas, mudavam de cores, faziam diversos tipos de sinais. E eu sempre me perguntava: o que diziam as estrelas?
Nas noites quentes em Santo Estevão, enquanto eu deitado sob os frondosos ramos do tamarineiro em contemplação e encantamento, me ocorria um sentimento curioso: eu sentia falta de uma voz que não fosse a minha. Era mesmo uma coisa fora do comum porque, que eu me lembre, não tive amizades sólidas na infância. Exceto o David, nenhuma amizade me durou mais que trinta minutos. Só me recordo que alguém sempre saía machucado quando estava perto de mim.
Na infância meu único amigo foi um pé de tamarindo e minha diversão foi assistir ao espetáculo das estrelas.
Pouco sociável, portanto. Era um besouro subindo e descendo a árvore, costurando conversas com os fantasmas da minha imaginação e sempre protegido por meu amigo gigante: o tamarineiro. Era um fantasma calado, obscuro, taciturno, esquivo nas horas em que me era obrigado conviver em sociedade.
Quando compreendi o valor de uma amizade e aceitei o desafio de se conviver com as diferenças, busquei cultivar amigos, e me vi cercado de tamarineiros ambulantes. São seres com os quais se pode admirar estrelas. Não tenho mais aquele tamarindeiro, mas as estrelas ainda querem me dizer alguma coisa.

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