quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Espelhem-se no exemplo delas...

Hoje, 15 de outubro de 2009, nada melhor que recordar o pepel do professor na sociedade moderna. Eu que engatinho nessa área (apenas 8 anos de carreira docente), sempre me pego angustiado com esse tema. Parece que o muito que fazemos é cada vez um nada diante das tranformações sociais e principalmente diante das grandes vitórias da incipiência em nosso tempo. Esse 15 de outubro me faz lembrar de duas professoras que "brilharam" aqui na Bahia, por esses dias.


A primeira, na foto ao lado esquerdo, é uma professora do Ensino Fundamental, que em um dia de muito álcool e folia, subiu no palco para dançar o mais novo rítmo baiano "toda enfiada".  Quando o caso veio a público a escola em que ela trabalhava a demitiu. 

Qual o papel do professor/educador na sociedade atual?

A professora Virgínea, foto a baixo ao lado direito, foi a única premiada no nordeste e entre os 10 melhores do pais, em um concurso realizado pelo MEC.


Virgínia era professora do 5º ano da Escola Municipal Cipriano Santa Rosa, Acari - BA, quando escreveu o premiado projeto “Livro de Pano: ato e efeito de ler e escrever”.

Novamente pergunto: qual o pepel do professor na sociedade atual?

Qual dos dois exemplos melhor reflete nosso papel enquanto educadores, formadores de cidadãos?

Quando a professora dançava alegremente e quando a outra recebia um prêmio nobre, o que as duas diziam para a sociedade? Quais lições podemos aprender com elas? Qual é mais desejada e mais apoiada pelos seus alunos, colegas, amigos de modo geral?

Ao decidir pelo magistério, reflitam sobre essas coisas e se espelhem no exemplo delas, seja para ser ou não igual a elas.

FELIZ DIA DO PROFESSOR!!


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Por que eu ensino?

           Resolvi contar o que me levou a ser um professor. Um tempo atrás trabalhei com o AJA, programa de Alfabetização de Jovens e Adultos do Governo do Estado da Bahia. Tive uma aluna que marcou muito o meu trabalho: uma senhora de 85 anos cujo sonho era ler e "assinar o nome". Assumi esse desafio, que não foi fácil, pois a dona Joanita trabalhara durante toda vida na roça, tinha suas mãos calejadas, tão grossas que dificultava seu tato, seus movimentos foram comprometidos depois de sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral, o famoso derrame), sua visão não era mais a de uma garota, tanto é que as aulas eram ministradas a tarde, para aproveitar a luz do sol. Durante sêis meses eu busquei formas de instruír-lhe. Dona Joanita não tinha mais tantas aspirações na vida e constantemente era desestimulada pelos familiares, pois que mais uma vovozinha queria da vida? Diziam que estava na hora de dona Joanita descançar. Um dia ela disse sorrindo: - meu fio, eu vou assinar meu nome nem que seja no céu, já cansei de colocar o dedão, morro de vergonha disso. Sua força de vontade era tanta que em pouco mais de dois meses ela escrevia seu nome, reconhecia algumas palavras; seis meses depois, na festa de formatura, ela foi assinar, pela primeira vez, um documento: seu diploma. Dona Joanita veio a falecer três dias depois do evento, mas sua última fala nunca saiu da minha mente: - meu fio, fico muito agradecida por você ter me ajudado, hoje eu me sinto realizada. Foi essa experiência que me motivou a ser o que sou: um professor, convicto de minha missão e responsabilidade na transformação social.
          No ínicio do ano letivo nós, professores, nos debruçamos sobre livros, textos, vídeos, músicas, materiais didáticos, tecnológicos e etc. Ansiosos, sonhadores, imaginativos. Há um mundo novo em nossas mãos e esperamos poder descortiná-lo para nossos alunos. Depois de selecionar os conteúdos, reler o PPP (Projeto Político Pedagógico) da escola, de ver as ementas dos cursos, de examinar cuidadosamente o que cada turma estudou no ano anterior, então preparamos as primeiras aulas e damos a elas um título bonito: DIAGNOSE. Depois de criar as maiores expectativas, começa ver seu castelo desmoronar frente as limitações físicas e técnicas das escolas públicas; começa perder o encanto ao notar a ausência de bibliotecas, quadras, espaços adequados ao desenvolvimento trabalho docente e do aluno. O desencanto se acentua quando percebemos que nossa clientela, os alunos, não estão nem aí para a própria aprendizagem. Eles já chegam nas salas loucos para voltar para casa, fazendo figa por uma aula vaga, torcendo para que o professor adoeça (ah, se praga de aluno pegasse, estaríamos fritos).
          Eu gostaria de ter uma turma chaia de donas Joanitas. Para ela não importava se a cadeira era dura; se tínhamos, às vezes, que estudar na frente da escola para que ela visse os próprios rabiscos; se de sua casa para a escola era muito longe; se o professor, inexperiente, exagerava nas cobranças... dona Joanita ansiava por ver o mundo novo ser descortinado na sua frente e eu faria qualquer coisa para facilitar seu aprendizado. Dona Joanita sentia falta de mim, quando eu não podia ir por conta das chuvas (o lugar era de difícil acesso), quando ficava gripado ou por qualquer outro imprevisto. Dona Joanita não fazia questão de terminar a aula depois do horário, para ela sempre estava sedo. Depois da igreja, a escola era seu lugar preferido. Para dona Joanita cada letra do alfabeto tinha um outro sentido: o "S" se parecia com uma rama de batata, o  "A" se parecia com um cavalete, o "E" se parecia parecia um gancho e assim por diante.
           Foi dona Joanita que me fez sentir o prazer de ensinar e de lá para cá não consegui parar: virou vício. Muitas vezes me questiono sobre o que estou ainda fazendo em sala de aula, pois a missão dos mestres parece intransponível. Vez por outra alguém me procura para agradecer os ensinamentos, coisa rara hoje em dia, mas acontece, e isso me faz acreditar que vale a pena. A parábola da semeadura se aplica neste caso, pois não importa onde cai a semente dos meus ensinamentos, algumas delas um dia irão florescer e dar frutos para se tornarem semeadoras e produtoras de abundância. Se eu conseguir ajudar uma só pessoa, das tantas com as quais trabalho, já me sentirei realizado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O show da vida não para...

Não importa o que aconteça a você ou a mim, uma coisa é certa: a vida jamais deixará de dar o seu glamuroso show. Nós fazemos de nossa existência o que achamos melhor, mas não poderemos deixar de lembrar que a vida nos dá uma única chance de ser feliz: agora. Na incerteza do futuro, diante de tantos percalços e perigos por quais passamos, a maior oportunidade que temos de tomar a decisão certa para viver as emoções certas é o momento presente. Então que não deixemos de participar do espetáculo que a vida está nos oferecendo, pois o show da vida não para.
Vai chegar o memento em que você precisará deixar de perguntar "o que eu espero da vida?" e pensará em "o que a vida espera de mim?". Eu vejo a vida como o sujeito passivo, contemplativo, reflexivo; nós como sujeitos ativos, capazes de agir e modificar a realidade à nossa volta, fazendo acontecer, na vida, a mágica da felicidade que tanto buscamos. Tem gente que para no tempo, pensando que a vida vai lhe trazer sorte (eu não sou fã da sorte, nunca me dei bem com ela), acredito na ação, no trabalho, no querer. Tem gente que fica prostrado perante a vida, esperando que ela manifeste alguma ação de solidariedade aos seus infortúnios. Parar e ficar prostrado é uma atitude indicada apenas às pedras do asfalto, para que o show da vida passe sobre ela.
Não há poder que não emane da vontade, portanto nós somos o que queremos ser. Viver sem vontade é insustentável. Atualmente muita gente vive assim: sem a menor vontade de viver. Adespeito disso a vida continua se manifestando nas mais ermas situações. Não ter vontade de viver, é não enxergar que à sua volta existem dores e calafrios bem maiores e que por mais intenso que sejam, não ofuscam o brilho da vida e nem mata a esperança. Há muita gente em pior situação que você e mesmo assim, lutam por um restinho de vida. Viver a contento não é, portanto, fácil; é, sobretudo, um desafio constante.
A covardia pode ser um mal que persiga o homem, mas nenhum ser humano nasceu covarde. A principal demonstração de coragem você deu ao aflorar do ventre materno dando um grito de liberdade, reclamando para si o ar e o direito de viver. Pode ser que depois foi se acovardando, se acabrunhando, assimilando os malefícios e se tornando refém dos proprios medos e das proprias inseguranças. Assim, em vez de show, a vida lhe parece um fardo. Mas se você olhasse as sementinhas brotando no chão, desprotegidas, sujeitas a toda sorte de perigos, e mesmo assim abrindo seus galhos, seus ramos, suas flores; sem se importar se o vento é forte, se a terra é infértil, se o lugar é ruim e florecem onde nasceram, sem opção de mudar (a menos que alguém ou uma circunstância natural a mude, tendo nisso ainda outros tantos perigos que colocam em risco sua existência). Ser inteligente é que deixa o ser humano tão idiota a ponto de não acreditar nos exemplos mais naturais da vida.
Eu estou satisfeito comigo mesmo. Bem resolvido com minhas dúvidas. Honesto com minhas incertezas. Seguro com minhas inceguranças. Tenho todos os problemas e dilemas que qualquer ser humano tem, mas nada disso me impede de sorrir, de acreditar e principalmente, de gostar do desafio diário de viver. O show da vida sem mim, vai continuar, mas enquanto eu poder fazer desse grande espetáculo o meu parque de diversões, farei. Sem me preocupar se amanhã estarei mais velho, se o mundo é injusto, se as coisas não dão certo, pois o mais importante de tudo é que eu sou um artista no show da vida.
Viva a vida!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O Dia não parou


Nossa! Vocês não sabem o quanto eu sinto vontade de estar sempre atualizando esse blog, mas vez por outra, quando do trabalho e da faculdade sobram um tempinho, eu faço vista grossa. Acho que todo mundo é meio assim, principalmente quando tem que priorizar algumas coisas. Vou tentar ser mais presente aqui. Uma vez que o blog é um diário, vou fazer aqui as minhas considerações diárias, sobre meus dias, o que faço e deixo de fazer. Vou estar contando as novidades que eu julgar conveniente ou que seja necessário ou que seja de interesse popular ou que.... enfim.

Então vou atualizar com mais frequência. Espero.

Só pra recapitular: eu estava naquela euforia do lançamento do filme (Caminho de Feira) aqui em Sátiro, falando no filme, mês passado recebi uma grata surpresa, fui procurado pelo jornalista Moisés, do Expresso18 (CLIQUE AQUI PARA BAIXAR A VERSÃO DIGITAL), que estava a fim falar sobre o filme; após alguns dias recebi um exemplar do jornal com a matéria, fiquei súper feliz. Mais ainda com o resultado positivo da divulgação, que está me permitindo fazer inúmeros contatos na região e tornando minha vida de cineasta (engatinhante) um tanto mais fácil.
Agosto é o mês do meu aniversário (dia 21); depois do advento dos sites de relacionamentos como o orkut, ficou mais fácil lembrar dos aniversariantes. É tão chato chegar em algum lugar, no dia do seu anivesário e não ser lembrado (sendo aquele o dia que muitos consideram o mais importante do ano); nisso o orkut está facilitando a vida. Recebi tantos recadinhos de parabens, fiquei horas lendo e me emocionando com as frases de carinho...
Na UNIRB, faculdade em que estudo Direito, meus amigos também comemoraram com muito bom humor. E também fui festejar com outros amigos no I Festival de Inverno de Inhambupe, no domingo (23/08), onde a dupla Zezé di Camargo e Luciano fez um brilhante show.

Bom por hoje é só. Agora como estamos atualizados, vou manter assim, fazendo jus ao status de diário que tem os blogs.

Abração!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Revelando os brasis em Sátiro Dias

Dia 21/05, foi a vez de Sátiro Dias receber a caravana do

Revelando os Brasis. E para variar, choveu muito. Mas não teve
problema, o plano B existe pra isso mesmo. O local
utilizado para exibição foi um clube Oca Toca, que acomodou as
autoridades presentes (como o prefeito e alguns vereadores) e as 500
pessoas que compareceram para prestigiar o vídeo da cidade:
Caminho de Feira, de Abimael Borges.

A platéia animada paticipou o tempo todo do evento, desde a
abertura e as apresentações, quando Abimael homenageou os seus
atores com diplomas, até a exibição em si. Como das outras vezes,
a identificação do público com os vídeos foi geral. Amigos
encontrando amigos e parentes encontrando parentes na telona. Sem
falar na realidade comum daquela região.

Esta sessão foi a despedida do Circuito nas cidades baianas.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

NOTÍCIA

Revelando os Brasis ganha a estrada levando sessões gratuitas de cinema para pequenos municípios em todo o país


Três caminhões percorrem simultaneamente quase 30 mil quilômetros, passando por 40 municípios e 18 capitais em todas as regiões do Brasil.
A mostra apresenta os vídeos realizados na terceira edição do projeto.

O Circuito de Exibição Revelando os Brasis tem início no dia 14 de Maio. Três caminhões percorrerão quase 30 mil quilômetros levando projetores e telas de cinema para exibições em ruas e praças. Os 40 municípios selecionados nesta terceira edição e as 18 capitais dos respectivos estados receberão a mostra, que apresentará os vídeos feitos pelos moradores dessas cidades. O projeto existe desde 2004 e viabiliza a produção de filmes em cidades com até 20 mil habitantes.

O Revelando os Brasis é um projeto da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, realizado pelo Instituto Marlin Azul, com patrocínio da Petrobrás e parceria do Canal Futura.

O lançamento do Circuito acontece no dia 14 de Maio, no município de Sapeaçu, na Bahia. O evento contará com a presença do Ministro da Cultura, Juca Ferreira. Em cada exibição do Circuito, será apresentado o vídeo produzido na cidade, além de mais três produções do projeto. Cada vídeo tem duração aproximada de 15 minutos e os caminhões que transportam os equipamentos funcionarão como cabines de projeção.

O Circuito em números
40 municípios com até 20 mil habitantes cada
18 capitais
40 vídeos digitais na programação
Quase 30 mil quilômetros a serem percorridos
3 caminhões seguindo rotas diferentes e promovendo exibições simultâneas

As rotas - De Sapeaçu, um dos caminhões segue para a exibição no Pelourinho, dando continuidade à Bahia, percorrerá também os estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. As exibições devem durar até meados de Junho, quando o segundo caminhão terá cumprido a rota do Espírito Santo ao Acre, promovendo exibições também em Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Rondônia e o terceiro roteiro terá passado por Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Ações de difusão - O Circuito de Exibição faz parte das ações de difusão do Revelando os Brasis. Os vídeos do projeto também são exibidos no programa de TV que vai ao ar pelo Canal Futura. As produções são lançadas ainda em DVD, com distribuição gratuita entre os realizadores, organizações sociais e culturais, bibliotecas, universidades e cineclubes de todo o País.

Mais Informações:
Marialina Antolini
Assessoria de Comunicação
Instituto Marlin Azul
(27) 3327-2751 / (27) 8123-8545

domingo, 3 de maio de 2009

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido


"O Teatro do Oprimido é o teatro no sentido mais arcaico do termo. Todos os seres humanos são atores - porque atuam - e espectadores - porque observam. Somos todos 'espect-atores'" (Augusto Boal)


No último sábado faleceu o grande criador do Teatro do Oprimido. Ouso dizer que é o fim de uma hera para o teatro brasileiro. Augusto foi a maior damaturgo da atualidade. O carioca Augusto Pinto Boal nasceu em 1931, estudou na School of Dramatic Arts da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Além de diretor e teórico de teatro, escreveu vários livros e revolucionou o teatro com a criação do método conhecido como Teatro do Oprimido.


"Teatro do Oprimido (TO) é um método teatral que reúne Exercícios, Jogos e Técnicas Teatrais elaboradas pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal. Os seus principais objetivos são a democratização dos meios de produção teatrais, o acesso das camadas sociais menos favorecidas e a transformação da realidade através do diálogo (tal como Paulo Freire pensou a educação) e do teatro. Ao mesmo tempo, traz toda uma nova técnica para a preparação do ator que tem grande repercussão mundial." (Wikipedia)


Até então, conhecíamos o método tradicional Stanislavskiano. Augusto, é o responsável pelo surgimento de um método completamente nacional, baseado no fato de que nós, os brasileiros, fomos sempre oprimidos e impedidos do acesso às artes, ao livre pensamento (lembrar que Augusto foi exilado durante a ditadura militar). Para Boal, o acesso às artes deveria ser livre pois todos os homens são atores e espectadores na vida. A arte é inerente ao ser humano e a liberdade de praticá-la e vivenciá-la como um todo não pode ser negada por hipótese alguma.


Em seu Teatro do Oprimido, Boal nos ensina que para sermos um artista completo precisamos:

1. Sentir tudo que se toca;

2. Escutar tudo que se ouve;

3. Ativar os vários sentidos;

4. Ver tudo que se olha;

5. Ter a memória dos sentidos.

O legado de sua criação deve ser bem aproveitado pelas nações futuras.

O Junco na TV


A exibição no Canal Futura mobiliza a cidade inteira. Geralmente quando falamos que o vídeo será exibido em rede nacional (e internacional), as pessoas não dão muito crédito. Não seria pra menos, em cidade pequenas como essas, ninguém está acostumado com esse tipo de promoção cultural, a novidade é tão grande que assusta. No entanto, quando chega o dia, alguns timidamente ligam seus televisores. Na verdade pensam consigo: “quero só vê se vai passar mesmo”. Então a mágica começa e quando aquele rosto conhecido de todos na cidade se descortina na telinha, ai começa um verdadeiro frenesi no povoado. Só se vê gente saindo na porta e gritando: “corre fulano, liga a televisão ai no Futura!”; “chega gente, vem ver, aquele menino daqui ta na televisão!”, outros mais sofisticados pegam o telefone e a lista telefônica e começa a ligar para todos os amigos: “Alô, é Bentinho? Oh rapaz, liga tua televisão ai no Futura.” E o interlocutor “espera ai que to sintonizando, Antonio” (...) “Oia gente, e não é aquele rapaz daqui?” e assim vai. Em menos de cinco minutos saí de casa e ouvi apenas um som: a minha voz e a do Ernesto ecoava pela cidade nos quatro cantos. Após o programa peguei a moto e fui a
um povoado, ao reduzir em um quebra-molas uma senhora olhou para mim e disse pra suas colegas: “Oh mulher, esse menino ai não é aquele que estava na televisão nestante?” e as outras “e pois não é mesmo?” e ela “e foi no Rio e voltou agorinha?” eu ri e segui minha viagem.

sábado, 11 de abril de 2009

To rindo, mas é séro!

Há dias estamos ouvindo falar das diversas “confusões” que estão acontecendo no carro dos universitários de Sátiro Dias. Ouve-se falar de vandalismo, falta de respeito moral para com outros passageiros, “guerra” de bolinhas de papel, depreciação do veículo, agressões físicas e verbais entre os próprios estudantes ou a passageiros eventuais autorizados, manifestações implícitas ou explícitas de racismo e preconceito, poluição sonora, entre outros. Diversos problemas permeiam essa travessia diária: Sátiro Dias a Alagoinhas, Alagoinhas a Sátiro Dias, dando a entender que o que para alguns é um sacrifício descomunal, para outros, é um mero passeio.
Tudo começou com as bolinhas de papel. Algo inocente e passageiro até então, chegava a ser divertido, passava o tempo, descontraia, em suma normal para uma turma de jovens ávidos por aventuras. Mas como todo exagero é doentio, ninguém vai aceitar ser alvo a vida toda, todos os dias, durante ida e vinda de uma viagem de mais de 100 km, que se repetem todos os dias numa rotina enfadonha movida unicamente pela necessidade de estudar, então virou confusão.
Imagine aquelas crianças mimadas que quando vê que um adulto sorriu, aprovando sua brincadeira, ela incrementa a ponto de não saber mais a hora de parar até que se machuca e tudo vira lágrima, pois bem, assim foi. As barreiras dos limites se foram: tão bonitinho ver alguém chateado ao receber uma chuva de bolinhas de papel... a criançada universitária se divertia. Não tinha cristão para entrar no carro e não ser vítima; todos sentados, quietos, o carro entra em movimento, risinho daqui, risinho dali, alguém rasga uma folha de papel, ops, o caderno caiu e soltou a folha, que pena né? Vamos ter que jogar uma folha de papel no lixo, pois é, rasga, enrola. Ai! Que foi? Jogaram uma bola de papel em mim... risos. Ai, ai? O que foi? Jogaram duas... risos. Ai, ai, ai! Três... hum. E assim vai. Não se estresse, é só uma brincadeirinha pra distrair. Mas logo comigo? Não, é que não tem cesto no carro, e nós achamos tão bonitinho você dizendo “ai, ai, ai”... risos e mais risos.
Mas brincar assim é que nem fumar maconha, além de viciar, tem hora que não faz mais efeito e é necessário usar algo mais forte, e mais forte até uma overdose. Alem do mais aquele modelo de brincadeira se tornou enfadonho até pra quem o promovia. Resolveu-se dar tapinha na cabeça dos visitantes. Deu-se a desgraça. Uma pobre de Deus, primeira vez no carro, por ordem superior, entrou sorridente, deu boa tarde, sentou-se acomodada e feliz porque não ia pagar passagem. Vemos os olhares se entrecruzarem e feições risonhas se combinarem sem precisar de uma palavra só. Minutos depois a senhora já não ria. Não ficava mais acomodada em seu lugar, mudou de posição, ligou para o marido, começou a se estressar. Também, pudera, cada tapa na cabeça que levava, coitada, de nada adiantava pedir pelo amor de Deus, me deixem em paz. Outro dia nos encontramos e ela me falou que aquela foi a viajem onde ela foi mais humilhada em toda vida.
No meio do caminho paramos e pegamos uma jovem mulher. Imaginávamos que fosse estudante. Ao chegar a Inhambupe ela pediu parada e quando ia descer estendeu a mão a pagar a condução, o motorista então perguntou surpreso: você não é estudante não? Porque aqui não se cobra passagem, transportamos estudantes. Admirada e visivelmente chocada, a jovem exclamou: estudantes! Pensei que fossem a uma festa! Estudantes desse jeito? E desceu transtornada, meneando a cabeça. Passei uma semana pensando sobre a reação da jovem. Afinal o que se espera de estudantes universitários? Bom, não me aprofundando nessa questão, em nosso carro você pode esperar bolinhas de papel e tapinhas na cabeça entre outras coisas mais.
Mas a questão era o som. Altíssimo e de péssimo gosto. Embora acredite que gosto não se discute, o litígio é o espaço coletivo, onde há vários gostos há de se convir que respeitar o direito do outro, de não ouvir uma letra ridícula como "Quando ela me vê ela mexe, piri que piri que piri piri piriguete", é uma questão de saúde pública mental. É o mesmo caso da proibição de fumar em lugares fechados porque é nocivo não só à própria saúde, mas também à saúde alheia. Quem escreveu esse lixo é muito inteligente: sabe que o mercado ta cheio de ouvintes, lucro garantido. Entretanto ninguém é obrigado a ouvir “vem meu bem, use e abuse, chupe, chupe, chupe, chupe, chupe, chupe”, o cúmulo da mediocridade. E como se não bastasse, ter que ouvir nas alturas o mesmo repertório durante quatro horas em mais de 200 km (ida e vinda), isso é coisa da prisão de Guantánamo: é tortura com música. Vai ter a mente vazia assim no inferno.
Ser mente vazia ultimamente é até normal, ser burro já virou moda. Falar errado é tão bonito... As pessoas hoje têm mania de dizer que a língua portuguesa é a mais complicada do mundo, só pra justificar a incapacidade de aprender o próprio idioma. Parece que estamos vivendo a era em que o belo é a insipiência. Mas ser burro a ponto de demonstrar atitudes preconceituosas em pleno século XXI, já é caso de polícia. Pois uma pobre coitada que estava acima do peso teve a desdita de pegar carona nesse bendito carro, e sofreu. “Balefa”, é a mistura de baleia com lefa, baleia não preciso definir, “lefa” bom, é a coisa mole, folgada, solta, sem domínio e etc, mas dentro do contexto ela foi chamada de gorda e desajeitada, obviamente. “Balefa” é um termo pejorativo, ofensivo e enfim, preconceituoso. Preconceito, é para mim, a coisa mais podre que a humanidade já concebeu. Racismo e preconceito é fruto da escória da raça humana. Se você é preconceituoso, faça um favor ao bem estar dos seres humanos de mente sadia, morra.
Eu fico com pena dos pobres que acordam às 6 horas da manhã, para ir ao trabalho. Passam o dia no batente e encara a maratona de viagem a partir das 15h40min, depois uma sala de aula, algumas das vezes com péssimos professores, realidade comum nas universidades particulares de Alagoinhas, e chegam em casa às 00h30, de corpo e alma cansados, sem falar em quem estuda no sábado, para completar carga horária. Estas pessoas, que mal tem tempo para cumprir com o dever, não tem tempo para bolinhas de papel, infantilidades imbecis, cargas d’água e babaquice. Essas coisas ficam para quem tem vida ganha.
São coisas desse gênero que vem desgastando o relacionamento entre os acadêmicos. A completa ausência de um espírito solidário. A libertinagem em lugar da liberdade; da aceitação; da tolerância. A ausência de valores de respeitabilidade, do direito ao livre pensamento e à individualidade. O desrespeito às ideologias e vivencias das diferentes personalidades. A falta de liderança, de acordos de convivência, de organização social. O egoísmo sob a premissa da proteção incondicional baseada na crença da propriedade do domínio. A negação definitiva de que o direito próprio cessa face ao alheio. Ilusões descabidas gerando problemas ainda mais descabidos num âmbito de onde ninguém jamais espera.

domingo, 29 de março de 2009

Ernesto Piccolo entrevista Abimael Borges


No próximo dia 19 de abril, às 14:30, estreia o episódio Caminho de Feira, no programa Revelando os Brasis do Canal Futura.
Na primeira parte do programa será exibida uma entrevista com o realizador Abimael Borges, apresentada pelo talentoso Ernesto Piccolo, ator e diretor de teatro, cinema e tv, já na segunda parte será exibido o curta metragem Caminho de Feira.
O programa Revelando os Brasis III exibe vídeos produzidos por realizadores que habitam municípios do Brasil com menos de 20 mil habitantes. Nos vídeos, que vão da ficção ao documentário, descobrimos a diversidade do país, sua cultura, paisagem, costumes e histórias. As entrevistas com os realizadores revelam o imaginário de quem mora nestas comunidades, relatam o processo de produção dos vídeos e como as produções impactaram o cotidiano das localidades retratadas. Revelando os Brasis é uma parceria do Instituto Marlin Azul e do Canal Futura. Neste programa Ernesto Piccolo conversa com Abimael Borges, realizador do Docudrama CAMINHO DE FEIRA que será exibido. O vídeo narra que toda segunda é dia de feira em Sátiro Dias, espaço de interação popular onde convivem diferentes histórias e personagens.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Antes que fenesça o amanhã...

Imaginar-se amanhã, dentro de uma realidade ideal, sem permear as lendárias ilhas da fantasia, é fascinação, deslumbre, encantamento, isto é, lindo porém irreal. A diferença entre o plano e sua execução é alarmante, o que importa mesmo é o objetivo. Sonhar com o ouro não significa encotrá-lo e extraí-lo puro, lapidado pela própria natureza. Foram na guerra forjados os heróis, do esterco brotam diamantes e nas trevas medonhas dos oceanos flutual engalfinhadas pérolas, que para seu hospedeiro ainda é uma pedra no sapato.
Jamais se iluda com o futuro. Antes que fenesça o amanhã saberás o que digo. Mormente acreditando alçarás voos. Não mora na indignação a destreza generosa dos cunhões da vitória. É, todavia, certo que os homens se deixão enlaçar por mirabolantes sonhos ao bel desfrute da criação acelerada, visionária, inebriante de sensações virtuosas e contudo, pouco frutífera. Não tomes por verdade a ilusão de um futuro sólido sem te ateres à construção, gradual, paulatina do que chamamos hoje.
Planeje, plante, construa pilares e abra caminhos nos ermos ferrenhos do mundo. Devo dizer, se tempo tiver, neste pedaço de século que a mim é confiado (por sabe lá quem) e a meu ver, para fazer valer as indicações do sobrenatural (afinal esse precesso criativa não é coisa desse mundo, vá lá saber as dores parturientes dos intelectuais aplicados, que não é meu caso, sobre a maca da introspecção reflexiva para o esborrar e o despejar de suas doces entranhas ao bem deste ingrato tempo?) que os pesares, afrontas, seichos, dissabores entre tantos outros redemoinhos que encontrar no meu caminho, enfrentarei. Não esquecendo, contudo, que se o plano for chegar à rocha, burle as árvores, e se à árvore queres chegar, burle as rochas e não te contraponhas a poderes além dos teus, te tornarias uma vida perdidamente inútil. Planos devem ser feitos para serem rasgados ante as novidades propostas pela realidade que se apresentar, refaça-os como quem usa, suja, lava e torna a usar sua roupa até que seja necessário substituí-la. E não se deixe frustrar, tu não dominas o caminho, apenas o escolhes. Vês? Não importa como, apenas chegue a teu destino, se já dantes não o tendes perdido de vista.
E quando chegares lá já quererás outras joias ou descobrirás que não querias ouro e sim diamantes: toma teu caminho, persegue o novo objetivo e vá, até que te quebre as pernas, te extinga a vida e pronto. Faze da tua vida o significado do precioso, sem perderes tempo com a seborreia do mundo.

(...continua.)

quinta-feira, 5 de março de 2009

AQUELE AMOR APRENDIZ ME ENSINOU A SER QUEM SOU

O amor mais lindo de todos os tempos foi aquele da porta da escola. Aquele que foi um amor gostoso. Um amor ingênuo feito apenas de desejos. Amor despojado de medos e obrigações, inconsequentemente infantil e sem dolo, feito pra durar uma eternidade. Era, hoje entendo, feito de adrenalina, pois quando aquele portão se abria, do peito parecia querer saltar meu infante coração. Era um amor de sonhos, sim, sonhos sem fantasias, eram imagens angelicais que povoavam minha mente e coloriam as noites.
Gostoso era levantar cedo, tomar depressa o café, sair de casa como se fugisse para um refúgio sagrado. Gostoso mesmo era chegar lá e vislumbrar sorridente o rosto da minha amada. Aquele não era apenas um sorriso, era uma cachoeira de felicidade caindo sobre mim. E como se nada mais existisse, meu corpo não se dominasse, eu corria para seus braços e num abraço tinha comigo o infinito e num breve instante o inaudito e estupendo sentimento de realização profunda.
Aquele amor de portão de escola era além de lindo, muito forte. Sim, pensava eu, era um amor inevitável. Um querer enlouquecido que não temia desventuras. Quem nesse mundo de deus teria coragem para destruir aquele amor? E como ser contra um sentimento tão lindo? Só por mil diabos alguém seria contrário à felicidade do meu tenro coração. E por mil e um diabos, existia alguém. Alguém de coração profanado pela maldade; uma mente envenenada pelo horror; uma alma ressequida pelo hálito do inferno da solidão. Só podia ser um corpo desalmado à esmo, buscando almas felizes para delas se alimentar.
Tanta felicidade irradiava de nossos poros quando nos abraçávamos. Quantos raios de luz escapavam por nossas pálpebras quando entreolhava-nos. Tanto contentamento fulgente por nossas mãos quando entrelaçadas. Sem falar de perfumes, estrelas, luas e sois que saltitavam em nosso encontro. O amor como a loucura mais sobrenatural que o homem tem.
Naquele dia eu precisava dizer: meu amor, há alguém entre nós querendo nos separar. Minha mãe já me disse que vamos nos mudar essa semana. Não tenho culpa, você tem que ficar e eu tenho que ir, mas eu nunca vou te esquecer Mônica, meu amor, minha professora Mônica, que me ensinou a ser quem sou.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

E os casos de amor vão se multiplancando na teia da vida


Vocês viram a nudez de Simplesmente Amor? Em relação aos filmes nacionais, aquele poderia ter sido gravado na íntegra dentro do salão da Basílica de Roma, de tão pudico, mas um blogueiro americano faz duras críticas a isso, nudez excessiva e linguagem ruim; eu adorei, um natal perfeito. Como se tudo na vida caminhasse para o amor sem pedras no caminho, ou pelo menos que as pedras fossem contornadas sem maiores impecilhos. Eu assisti pela décima quinta vez a cena de Colin Firth e Keira Knightley em Love Actually (Simplesmente Amor, aqui). E estava pensando nessa coisa de dizer o que se quer sem usar palavras. Falar a voz que não se ouve. Conjugar os verbos do coração, sem para isso intercalar silêncio e som para se fazer entender.
O amor não é essa coisa que da e passa. É, como dizia o Caio, não meu bem, não adianta bancar o distante: la vem o amor nos dilacerar de novo... Vamos lá, amigo, vamos lá tomar uma surra do amor! Ser sutil e dilacerado.
Não ter medo da solidão. Porque se tiver vai piorar tudo. Outro dia num bate-papo me intitulei de Conselheiro para sondar a solidão do povo. Nossa, quanta solidão no mundo! Quantos corações vazios! Quantas vidas perdidas! Eu quase adoeci. Mas me basta a minha solidão, eu procuro lidar com ela numa esfera de amizade fazendo-a uma parceira, amiga, necessária e até indispensável. Eu procuro acreditar que não preciso de um momento sozinho, mas de muitos momentos e que todos esses momentos sejam de ócio criativo, de solidão inspiradora. Embora eu tenha uns amigos que não acreditam nisso. Dizem que eu fumo maconha, que a maconha faz o cara viajar e daí surgem as criações. Não. Eu fumo solidão com uns goles de cerveja e não faço nada pelo mundo.
Não faço quase nada de criativo nesse mundo, fico preocupado com o que a humanidade vai pensar de mim no futuro; pensarão que fui um vivente inútil que não fiz nada pelas gerações à minha frente, que não ajudei na despoluição do meio ambiente; que não fiz uma descoberta como Thomas Edson e outros; que nasci, consumi, e morri sem dá a mínima para quem ficasse; que dei sim muito prejuízo, que joguei lixo pela janela do ônibus ou que na praia deixei as cinco latinhas de cerveja que tomei e cometi outros crimes como usar inseticida aerosol cheio de CFC entre outras coisas. Então vão tirar meus restos mortais para julgar e condenar à fornalha: Cremem-no. Antes porém deixo minha defesa: sou inocente, eu fiz o dever de casa, não poluí. Foram eles. Os Estados Unidos da América. Foram eles quem poluíram o mundo, vinguem-se de seus restos.
Mesmo sem fazer nada de tão extraordinário eu existo e tento e fumo solidão ainda que num ato de desespero. E os casos de amor vão se multiplicando na teia da vida e tornando tudo muito fascinante. Eu quero entrar nesse jogo também. Ser feliz, no seu colo dormir e depois acordar sendo seu colorido brinquedo de papel machê... ah, mas nosso Rodrigo Santoro estava muito bem.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Cada qual com seu bocado de tudo e de nada

Fico pensando que a vida vazia e triste dos outros seria melhor pra mim. Como se ninguém, além de mim, reclamasse um pouco de um pouco da vida pouca que carregam nos braços. Mas depois disso fico tentando me consolar com o choro do meu amigo que perdeu a namorada pra outro cara, ficou tão deprimido, querendo que eu o ajudasse a fazer besteiras, bebeu até não conseguir se levantar mais, levei para casa, dei banho enquanto ouvia suas lamúrias e coloquei pra dormir e o ouvi dizer baixinho: eu queria ser você. Maluquice. Pobres meninos inconsolados sofrendo coisas tão boas. Eu não senti o gosto de uma traição tão medonha.
Ainda outro dia invejei tão descaradamente a falta de sorte do meu primo. Já teve cinco mulheres, dois filhos, três brigas na justiça, o nome no SPC, está desempregado e depois dos trinta anos ainda vive com os pais. É um saco. Eu queria isso.
Estou tão cansado de viver verdades falsas e tentar dizer o que todo mundo deseja ouvir pra não soltar o grito prezo na garganta, que vivo em estado de náuseas desejando ser o que não sou só pra satisfazer o que sou.
A verdade é que ainda não sei definir o que é o amor. Acho mesmo um absurdo a gente gostar mais de outra pessoa do que de nós mesmos. Por isso já disseram que o amor próprio é o mais valioso, entretanto, há tanta controvérsia nisso. Há tantos loucos que abrem mão de si mesmo em prol do outro. E eu poderia achar isso muito maneiro se fosse um ato filantrópico; mas em se tratando de amor, é barril.
Se há de fato um estado de vida verdadeiramente transparente e se isso realmente preenche o homem de seus vazios ridículos, de suas necessidades existenciais, preciso urgentemente viver esse estado, ou definho. Nunca compreendi ao certo o ônus das mentiras, mas o preço árduo das verdades já descobri: é tentar dar explicações inexplicáveis. Você nunca será compreendido porque todo mundo acha um absurdo que outra pessoa não seja igual a ela.
As inverdades de que falo parecem incomodar a penas a mim, pois de mim não escondo nada além da verdade. Entenda, eu não olho para minhas verdades, elas não me interessam. Eu as escondo. Olho apenas minhas mentiras nojentas e são elas que te ofereço. Mas não faça cara de idiota, tu também omites verdades de ti, pois não queres que conheçam tuas fraquezas. Assim somos atores no tablado do mundo interpretando a vida ao nosso bel prazer.
Prometi, olhando as estrelas, que não iria mais chorar. Prometi, perante os céus, que não iria mais me ater ao pouco. Hoje entendo que a melhor coisa que fiz foi ter quebrado essas promessas. Chorar e me ater ao pouco, pois o que mais me resta? Não há porque reclamar o imutável; a vida dura que levo não se flexibiliza diante da minha lamentação. Ser duro, portanto, é o que pretendo. Claro que não serei mais duro comigo mesmo do que já é a minha própria existência, que já me impõe tantas limitações e tantos percalços. Não acho justo me propor mais outros tantos flagelos e cobranças. Serei duro ao olhar essa vida pesada e cruel, encara-la com firmeza e dizer sem receio: bate, esse amarelo tem sangre negro, bate que ele agüenta.
Uma noite, na porta de casa, sentei recostado à parede e olhei as constelações com os olhos cheios de água, mordi os lábios, não disse nada, só pensei: ainda não desisti, ficarei aqui pra ser um incômodo a tantos e por fim, a mim mesmo. Acho que isso me veio lá da senzala, do tempo em que eu era qualquer Santos muito bem adaptado ao regime do capataz, às chicotadas do senhor-de-engenho. Esse ranço é coisa de raça. Coisa de gente forte que não se entrega e nem se vende, gente que se nega ao fracasso, que resiste calado e vence, nem que a morte seja sua coroa ao amanhecer.
Após um bom tempo percebemos que tudo é uma questão de ponto de vista. Nem sempre vale apena apostar todas as fichas em um conceito, pois o tempo se encarrega de amassiar todas as facetas da existência destruindo padrões e aniquilando modelos. Ja esta mais que provado: aqueles que não mudam de opinião se tornam obsoletos; são rápidamente ultrapassados pelas investidas das novidades. E eu me cansei do ponto de vista estático que sempre tive: agora vale mais é ver tudo por diferentes ângulos

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