domingo, 16 de novembro de 2008

TRABALHADOR

Quem és tu
Que te levantas
Trabalha e trabalha
Depois cansa
Deitas e novamente dorme?

Uns te chama – eu te falo
Pois teu labor te consome
Se teu viver não tem preço
Pouco me importa teu nome.

E ao se levantar do teu sono
Contigo levantam estrondos
Cogita levantes de ombros
Atrai a si para os ermos
Tamanhos gemidos e assombros
Encontras teu manto
E te enveredas nas idas e vindas
Dos infinitos desejos e das
Benditas maldições dos mortais.

Chacoalha tua cabeça
E o teu corpo malha
A contento desabas para dentro
Revira-te novamente a fora
Revidas os socos do vento
Vomita as entranhas no tempo
E tua vida se torna fugaz

Levanta ligeiro!
Do teu cansaço emerge!
O teu viver é tão breve
E teu prazer passageiro.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Caminho de Feira está na Mostra Revelando os Brasis


Está acontecendo durante o festival Vitória Cine Vídeo a primeira Mostra Revelando os Brasis nacional. Durante a semana de 10 a 14 de Novembro, no Theatro Carlos Gomes, estão sendo exibidos os 40 vídeos do Ano III. Todas as sessões começam às 18h30 e a entrada é gratuita. Quem quiser reservar um lugar, é bom chegar um pouquinho mais cedo para pegar o seu ingresso na bilheteria do Theatro, que abre ao meio-dia.Acompanhe a Mostra pelo site do Vitória Cine Vídeo.
Confira alguns dos vídeios já exibidos no festival: CLIQUE AQUI

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Primeiras cenas

Graças aos bons amigos que temos em Sátiro Dias, conseguimos hj gravar as primeiras cenas do documentário (docodrama) Caminho de Feira: a chegada de um dos caminhões feirantes ao município.
A cena deu um pouco de trabalho. O caminhão deveria estar carregado (falsamente) só que o caminhão estava vazio, assim improvisamos com lona e caibro. Subir e descer a ladeira foi outro problema, pois como a cidade está muito movimentada, a ladeira fica muito perigosa, os motoristas desciam e subiam, tivemos que repetir a cena várias vezes pra não sair propaganda política nas plotagens dos carros, mesmo assim o trabalho foi muito bom.
Quero diantemão agradesce a meu amigo Gil, do Supermercado São João, por ter gentilmente cedido seu caminhão e ao seu filho, Murilo, por ter me ajudado na direção, na arte, na montagem das cenas. Quero agradecer ao moço (depois cito o nome) da serralheiria que pacientemente nos ajudou a montar o caminhão. Agradecer ao Clesivaldo pela condução do carro de apoio, ao motorista da panpa (depois cito o nome) que deu apoio nas tomadas externas.
O único inconveniente é que as pessoas em Sátiro confunde tudo com política; queriam nos impedir de filmar por acharem que se tratava de alguma denúncia. Tudo esclarecido, continuamos.
Amanhã será outro dia longo, agora vou cuidar dos preparativos para que tudo ocorra bem.
Que Deus nos ajude.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

MANHÃ DE AGOSTO

Acordei hoje cedo
Para ver se, como dizem,
O sol nasceria vermelho,
Como um coração ensangüentado,
Explodindo-se pelos ares,
Ofuscando os céus estelares,
Humilhando sombras
E desfilando majestade.

Mas em vez disso
Vi um sol solitário, sombrio,
Banhado numa gota de lágrima,
Tímido entre nuvens espessas
E seu pouco brilho desbotado
Esparramando-se como gota de orvalho,
Sério e levemente fúnebre.
Um espectro desajeitado.

É uma manhã qualquer
De qualquer agosto
E minha face nebulosa no espelho eu vejo
Embora denunciando que não é por gosto
Estar de pé agora é ato falho imposto
Vendo-me como um pedaço de repolho
Direi que meu aniversário é osso
Em vez de festa será meu desgosto

Então suspiro fundo.
Maiores são as dores do mundo.
Insignificantes são as minhas contrações.
Se me farto de orgulho bobo nesta vida,
Emporcalho meus desejos mais profundos
Ou vislumbro parcos sonhos de emoções.
Sentimento é o pouco que me resta
Desta tão medonha situação.

sábado, 19 de julho de 2008

Juventude Errante

Estamos aqui
Desgarrados
Largados à própria sorte
Insatisfeitos

Há um mundo tão diverso
Tão profano e tão complexo
Lá do outro lado do mundo
Mas estamos aqui
Eu e minha pinga no copo

Jovens
Onde mora a liberdade?
Aqui nesses confins
Onde tudo é banalidade
Sem ter oportunidade
De dizer o que se sente
Ou de fazer nascer os sonhos?
Ou lá nos amontoados de pedras
Nos torrões de cimento e brita
Na balbúrdia das feiras malditas
No espetáculo infernal das cidades?

Estamos aqui
Nesta mesa de bar
Não há mais pra onde olhar
Nem destino a explorar
Tão jovens e tão perdidos
Tão novos e tão desiludidos
Tudo perto e tão distante
Claramente confundidos

A esperança é que
No fundo do copo
E dos meus amigos perdidos
As ilusões se deformem
E vagamente satisfeitos
Durmamos todos
Contidos.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Caminho de Feira

Pré-Produção

Dentro da programação do projeto Revelando os Brasis estão esses primeiros 3 meses (Julho, Agosto e Setembro) de pré-produção, produção e finalização do curta-metragem.
A pré-produção, que já iniciou desde os estudos de roteiro, decupagem técnica etc., teve sequência no município, com aprimoramento do roteiro, visitas às locações, formação de equipe e aquisição de apoios.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Amanhã

Não seria o amanhã um hoje disfaçado de futuro? Como se veste o desconhecido? Ocultando uma realidade imprevisivel? E essas minhas indagações, por ventura, em toda sua inconsistencia ou desventura, não traria uma refelxão contínua? O amanhã não se revela em cores, é um quadro em preto e branco, ou em sépia, indefinido em seus contrastes, rico em espaço para formas e cores. Penso que hoje é uma obra de arte colorida que amanhã vai ficar dempedurado no museu do passado, para ganhar camadas da poeira do tempo.


É assim que diante do espelho penso no amanhã. Não me vem às lembraças de pavores, medos contidos, acasos prováveis, crises de sentimentos ou construções mirabolantes das minhas ideias tolas; vêm-me tão simplesmente a certeza de que acreditando, a gente vai longe. O amanhã eu construo hoje com tinta e recortes, ou simplesmente com o olhar.


Hoje, aquela lagoa pela qual passamos, os 39 e eu, me disse algo diferente: refletia sobre sua superfícia os imponentes arranha-ceus do Rio, formando uma obra de arte visual emoldurada aos pés do Cristo Redentor, tão única e tão simbolica; tão viva e tão nostálgica, tão perfeita e tão irreverente... senti fisgar meu peito à lembrança do desafio vindouro.


Na aula, a professora de Direção de Arte, perdoem-me pois me escapa agora o nome, trouxe-nos a proposta de uma colagem que pudesse revelar o espírito em cores de nosso filme. Bendita lagoa cujas cores me enriqueceram as ideias. Depois disseram que minha colagem poderia ser emoldurada: era uma obra de arte. A obra que dará origem a um filme, ou o amanhã construido hoje; a reflexão de um sonho.


Hoje eu só quero uma coisa: que cada vez mais brasileiros tenham a oportunidade de fazer colagens para construir um amanhã digno.


quinta-feira, 26 de junho de 2008

APRENDER APRENDER APRENDER

Paulo Halm, premiado roteirista do cinema brasileiro, autor do filme Canudos e atualmente do Seriado Global Dicas de um solteiro, é nosso professor de Roteiro e Direção no Revelando os Brasis 3. Com seu talento nato e seu jeito cativante, tem nos feito crescer a cada minuto com um experimento novo, uma atividade diferenciada, dinâmica e muito prática. Assim como hoje o sol brilhou um pouco mais aqui no Rio, do mesmo modo a nossa visão de cinema. Parece que uma núvem de ignorância começa a se dissipar. Nosso olhar para um filme agora não é mais o mesmo. Agora conseguimos perceber não apenas a história contada nos filmes, mas sobretudo as entrelinhas da produção de um vídeo. Esse olhar novo sobre o cinema, nos dá uma dimensão maior sobre o processo de produção. Particularmente, assistir a um filme, não é mais um mero entretenimento, é uma descoberta nova, uma reflexão crítica. Nossa nova percepção nos coloca muito além de meros expectadores.
A cada nova atividade, além de aprendermos mais, nos tornamos mais apaixonados pelo cinema. Somos 40 aventureiros no mundo mágico da fotografia cinematográfica. De todas as partes do país. Culturas, linguagens, pensamentos e sonhos diferentes, unidos por um objetivo comum: contar uma história através do cinema. Uma diversidade cultural de uma aplitude singular e de uma riqueza inestimável. Ideias que flutuam como o barcos num oceano de possibilidades.

Agora to indo. Tenho atividade pra fazer e sinceramente, não quero perder nenhum detalhe, nem um instante, nem um aspecto de tudo isso.

Até amanhã...

terça-feira, 24 de junho de 2008

Novo desafio me excita!


Hoje mergulhei num mar de águas profundas, antes tão escuras, agora começa a aclara-se revelando um mundo novo cheio de aventuras e desafios excitantes.
Quando recebi a ligação da produção do projeto, fiquei trêmulo. Um misto de ansiedade, alegria, euforia e tantos outros sentimentos me invadiram deixando completo de um abestalhamento louco e feliz.
Quando o avião decolou reduzindo a cidade de São Salvador a um lindo feixe de luz que tremulava sob as luzes dos fogos da festa dos três Santos queridos do nordeste (e do Brasil), veio à minha lembrança minha querida Sátiro Dias. Tomada de festeiros, reluzente de fogueiras, fervilhante às vésperas do novo pleito, mergulhada em um misto de sensações agudas, espinhosas, propensa a divisões conceituais de uma banalidade ímpar e sobretudo, cheia de esperanças, crenças e felicidades; lembrei-me de meus amigos tímidos nos arredores da cidade, de meus amigos falentes, dos displicentes, dos canalhas, dos docentes, discentes e decentes, dos sacanas entre outros tantos, no desbunde, na muvuca, na volúpia, nas bacanais... e em mim sussurrei: isso é por vocês (e por mim, é claro, não sou hopócrita).
Sátiro Dias vai completar 50 anos, e meu presente é este: farei tudo o que puder para ajudar essa cidade a perpetuar sua gente, suas culturas, sua história.
Sob forte neblina pousamos no Galeão, e após uma calorosa recepção, finalmente pude descançar da ansiedade para mergulhar a fundo nesse novo projeto.
Até amanhã!

sábado, 21 de junho de 2008

Revelando os Brasis

Pessoal sinceramente eu não esperava ser selecionado no Revelando, tudo começou quando chegou em minhas mãos a ficha de inscrição, pensei em escrever uma história muito conhecida na cidade, mas de repente alguém apareceu dizendo que iria escrever a mesma história e eu desisti dela, fiquei desmotivado. Escrevi o texto sobre a Universalidade Cultura da Feira Livre de Sátiro Dias para não passar em branco, a minha colega de trabalho Isabel Andrade, viu o texto e gostou, me incentivou a mandar, eu insisti que não deveria porque achei que não estava legal, mesmo assim mandei o texto e felizmente fui selecionado.
Confesso que o cinema sempre me facinou. Quando adolescente conheci um jornalista chamado Milton Gonzaga, ele havia trabalhado na antiga TV Tupi se não me engano, um cara muito inteligente que me ensinou muito sobre rádio, jornal e vídeo; ele me ensinou como fazer um "boneca" para jornal, como apresentar um programa de rádio, como preparar uma matéria para TV e etc. Eu também sempre fui muito curioso nesse aspecto. Depois disso editei por um ano o Jornal Gazeta Estudantil na escola em que eu fazia o Ensino Médio, o jornal inclusive recebeu moção de parabenização da Câmara Municipal de Vereadores, passei também a fazer programas de rádio na Felicidade FM com a experiência que já havia obtido na Voz Cultural de Taquarendi, distrito de Mirangaba BA.
Já me arrisquei na escrita de alguns roteiros para TV. Em 2005 escrevi, dirigi e atuei no roteiro da cobertura da festa de São João de Sátiro Dias. Tenho outros roteiros para um filme e um documentários.
O Revelando os Brasis vai, com toda certeza, me ajudar muito a ampliar meus conhecimentos para que eu possa colocar em prática não apenas o roteiro do documentário que inscrevi, mas outros projetos que pretendo desenvolver nessa área.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Revelando os Brasis






Divulgado o resultado da seleção da terceira edição do projeto





O Revelando os Brasis Ano III anuncia os 40 moradores de pequenas cidades que participarão das oficinas de formação e de realização audiovisual do projeto, que viabiliza a produção de vídeos digitais a partir de histórias escritas por autores residentes em municípios com até 20 mil habitantes. O projeto é realizado pelo Instituto Marlin Azul e pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, com patrocínio da Petrobras e parceria do Canal Futura.

Para chegar à lista de 40 autores selecionados, a Comissão de Seleção leu e avaliou 671 histórias inscritas por pessoas de todas as regiões do país. Ao todo, o projeto recebeu 712 inscrições, mas foram desclassificados os candidatos abaixo de 18 anos de idade e os moradores de municípios acima de 20 mil habitantes.

De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 5.568 municípios; desses, 4.006 têm até 20 mil habitantes.

Cursos - Os autores participarão do Curso de Formação e Realização Audiovisual, entre os dias 24 de junho e 5 de julho, no Rio de Janeiro, com todas as despesas pagas. O curso oferecerá oficinas de introdução à linguagem audiovisual, roteiro, direção, produção, fotografia, som, edição, direção de arte, pesquisa, mobilização, direitos autorais e comunicação colaborativa.

Após os cursos, os selecionados retornarão a suas cidades para transformar as suas histórias em vídeos com até 15 minutos de duração. Nessa fase, eles contarão com o apoio de uma produtora regional que irá providenciar os equipamentos de câmera e de som digitais.

Os vídeos - Nas duas primeiras edições do projeto, entre 2004 e 2006, foram produzidas 80 obras, entre ficções e documentários. Os vídeos realizados pelo projeto são apresentados em suas comunidades através do Circuito Nacional de Exibição do Revelando os Brasis, que leva uma tela de cinema para os municípios. As produções também são exibidas no programa de TV que vai ao ar pelo Canal Futura. A partir de 2008, os vídeos do projeto também serão lançados em DVD com distribuição gratuita entre organizações sociais e culturais, bibliotecas, universidades e cineclubes de todo o Brasil.

Os selecionados Baianos são:

Abimael Borges dos Santos
História: Caminho de Feira - A Universalidade Cultural da Feira Livre de Sátiro Dias
Sátiro Dias - BA

Delmar Alves de Araújo
História: Jardim de Plástico
Lençóis - BA

Djenane Ferreira da Silva Correia
História: Dona Joana: Seus Ternos e Danças
Água Fria - BA

Edson Silva de Jesus
História: Os Vendedores Ambulantes de Beiju de Coco
Sapeaçu - BA





quinta-feira, 17 de abril de 2008

Casa de Saudade

A nave louca pouco a pouco foi levando
Aquela gente que gostava de cantar
Os meninos que brincavam lá na rua
O bosque que havia pra caçar
O velho que distribuía doces
O casal da praça a namorar
A infância moleca da vida
Com sua inocência e fugacidade
Aquele amigo de verdade
E os sonhos com casas de chocolate
O super-herói defensor
A loira da capa da revista
E pouco a pouco deixou
A vida louca da vida

A nave louca leva e deixa de nós muito
Leva o amigo e deixa a saudade
Vai a inocência e fica a vaidade
Parte a ingenuidade e chega a maldade
Tira o colo de mãe e põe a vontade
A vontade de ver voltar o que já foi
De correr descalço na areia
De subir pé de mangueira
De brincar de rezadeira
De dormir a noite inteira
De sonhar mesmo acordado

De lata se fazer carro
A vassoura é um cavalo
Bolo se faz de barro
Salada se faz de flor
E a vizinha é namorada
Pra chamar de meu amor

Esconde-esconde e amarelinha
Bola de gude e bola de plástico
Trave se faz de tênis
Bomba em rabo de gato
Pega-pega e aliança
Só não sente saudade disso
Quem é filho de chocadeira
E quem nunca foi criança

domingo, 2 de março de 2008

Depravações

Não leia meus versos de amor,

Pequeno diabo,

Pois tu me trouxeste maldade.

Arrancou do sossego minha alma

Dolente e acalentada na sobriedade,

Para o reino infernal das depravações...

Corrompi-me

Com teus laços insanos de perversidade

Com as delícias fatais da luxúria

Com a malícia cruel de tua sensualidade

E tornei-ma imoral – viciado em desejos

Uma taça de sangue – o corpo

Estandartes de fogo – os dedos

Saboreio o veneno traiçoeiro

Cobiçando carícias de nervos

Ansiando ardente - teu beijo

Coisa quase sobrenatural

E não te convenças jamais

Que já sabe o que pode ou não

Sair do meu instinto selvagem

Tu não tens a receita de homem

Tu não és o modelo da vida

Para justificar o teu medo

Liberta ter corpo

A viver fantasias reais.

Para descer com os réus da vontade

À sarjeta libertina do prazer

E se entregar ao carnaval da volúpia

Numa algazarra de felicidade.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Quadrilátero













.

Sem tempo pra lero-lero
Visto a camisa sem embroma
O que pintar na praia é onda
Tudo que rolar agora eu quero

Sou da noite, do agora
Do imprevisível, do acaso
Soi instável e fugaz
Sou do ponto, sou da hora

Não tem vaga pra memória
Pro imediato passado
Pro amor que já se foi do coração
Não fico em trêm parado
Nem perdendo tempo em estação
Quem quiser me acompanhar
Tem que acelerar o rítmo
Senão perde a posição

Não sei porque tenho preça
“A vida é um piscar de ólhos”
Os planos são como abrolhos
Os sonhos como promessa

Não tolero lentidão
Não suporto gente lerda
Comigo pouca converça
Com isso muita ação

Sou do hoje ou nunca
De agora ou não
Do positivo ou negação
E de pouca pergunta

E tudo isso é apenas uma das faces
Do meu ser complexo em quadrilátero
O noturno e taciturno
O diverso e controverso
O confuso e absurdo
O objetivo difuso
Uma indefinição divinizada
Uma conceituação póli-animalesca
E me aceito abstratamente
Sem compreensão de mim
Um número inválido

No começo do fim


quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O que diziam as estrelas nas noites quentes em Santo Estevão enquanto eu deitado sob os frondosos ramos do tamarineiro as contemplava encantado?

Uma tamarineira na rua Modesto Gusmão, cuidada sempre por minha avó arranjada que se chama Joana, mas é conhecia entre os íntimos, e ela mesmo assim prefere, ser chamada de Rola. Contou-nos certa vez a origem do gracioso apelido “Dona Rola”, que seu pai a levava para a caça dentro do seu alforje, e em retorno da caçada, em vez de tirar rolinhas da sacola, tirava-a como troféu. Assim ficou conhecida, a Rolinha de seu José, hoje, dona Rola, mas nas horas oficiais atende por Joana.
Vó Rola tinha um ciúme danado daquele pé de tamarindo, tanto foi que no dia em que as máquinas da prefeitura vieram fazer a terraplanagem para pavimentação da rua, foi avisada de que como o tamarindeiro ficava quase no meio da rua seria cortado e assim ela abraço-se ao tronco e exclamou: se ele vai, também vou!
Não houve acordo. Vieram fiscais, engenheiros, ordem judicial e o “diabo a quatro” até que o bom senso do prefeito foi-lhe em seu favor. O tamarineiro fica.
Não fosse a atitude corajosa de Vó Rola na defesa do pé de tamarindo, muito se teria perdido de história, porque talvez eu nem lembrasse mais das minhas inquietações com as estrelas e do meu amor pelo tamarindeiro.
Eu e o tamarindeiro tínhamos uma história em comum: costumávamos, à noite, acenar para as estrelas, conta-las, desfazendo o mito das verrugas, pois nunca me nasceu nenhuma, embora eu tanto contasse as formações estelares, a menos que aquela casca grossa do pé de tamarindo fossem as verrugas de nós dois.
Eu gostava mais do Cruzeiro do Sul e sempre achei que o tamarineiro preferia as Três Marias e como gosto não se discute, nunca perdemos tempo em ver quais eram mais bonitas que as outras, a gente simplesmente as admirava.
De vez em quando eu achava que as estrelas queriam dizer alguma coisa pra mim, elas piscavam, ficavam mais acesas, mudavam de cores, faziam diversos tipos de sinais. E eu sempre me perguntava: o que diziam as estrelas?
Nas noites quentes em Santo Estevão, enquanto eu deitado sob os frondosos ramos do tamarineiro em contemplação e encantamento, me ocorria um sentimento curioso: eu sentia falta de uma voz que não fosse a minha. Era mesmo uma coisa fora do comum porque, que eu me lembre, não tive amizades sólidas na infância. Exceto o David, nenhuma amizade me durou mais que trinta minutos. Só me recordo que alguém sempre saía machucado quando estava perto de mim.
Na infância meu único amigo foi um pé de tamarindo e minha diversão foi assistir ao espetáculo das estrelas.
Pouco sociável, portanto. Era um besouro subindo e descendo a árvore, costurando conversas com os fantasmas da minha imaginação e sempre protegido por meu amigo gigante: o tamarineiro. Era um fantasma calado, obscuro, taciturno, esquivo nas horas em que me era obrigado conviver em sociedade.
Quando compreendi o valor de uma amizade e aceitei o desafio de se conviver com as diferenças, busquei cultivar amigos, e me vi cercado de tamarineiros ambulantes. São seres com os quais se pode admirar estrelas. Não tenho mais aquele tamarindeiro, mas as estrelas ainda querem me dizer alguma coisa.

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