terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Inconsciente

- O que é que ta me olhando?

- Gosto de você, sabia?

- Se gosta, então cuide de mim?

- Mas eu cuido de você.

- E porque ta tomando isso?

- Isso o quê?

- Álcool, etanol entre outras porcarias...

- Ah, quero esquecer que você existe?

- Você quem? Eu?

- E quem poderia ser?

- Depois diz que gosta de mim...

- É claro que gosto, o que não gosto é essa sua mania de ficar sempre reprovando o que eu faço.

- E é pra ficar quieto? Se ta errado, ta errado mesmo e pronto!

- E eu desobedeço, desobedeço mesmo e pronto!

- Não tem como entrar em um acordo?

- Tem sim, você deixa de achar que é meu dono e pára de tentar mandar em minha vida...

- Certo e você larga isso ai que ta na boca, joga isso ai que ta no copo fora, veste um terno bem transado e vai procurar um trabalho...

- Porra de trabalho, quem vai querer contratar um velho rabugento que nem eu?

- Você está conformado com isso? Então vai continuar sendo um velho rabugento.

- Eu vou quebrar tua cara...

- Não estou dizendo? Você já bebeu de mais...

- To avisando, pare de se intrometer no que não é da sua conta...

- Você é um velho turrão mesmo, hein? Quando é que vai se dar conta de que somos apenas um?

- Você por acaso é veado? Que eu saiba o padre disse que eu era um apenas com minha mulher...

- Disso eu sei, mas eu estou sempre na sua cabeça, não tem como sair dela, eu sou você e você é eu...

- Isso ta ficando complicado e eu já estou ficando irritado. É bom ir parando por ai...

- Então vamos parando por aqui, eu fico na minha e você para de beber e fumar e pára de ficar me chamando de velho rabugento e vai procurar um trabalho...

- Ah, já chega! Que mania! Eu não lhe disse nada, to falando de mim...

- Eu sou você, seu tolo!

Splasheeeeeeeeeeeee

- Muié? Oh Muié? Venha cuidar dessa droga de espelho aqui... quebrei todo... quero ver se dá próxima vez esse velho rabugento vai ficar me dizendo coisa...

- Home disgramado! Tu quebrou o espelho do banheiro de novo? Vai beber pra ficar quebrando tudo dentro de casa? Anda, sai daí velho rabugento... vai procurar o que fazer.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Aquilo que não vale a pena numa paixão tipo cheque sem fundo.

Quando criança eu me perguntava o que era "valer a pena". Imaginava coisas do tipo: que pena? pena de galinha, de pombo, de águia? Pena de voar, pena de escrever, pena de penar? Fiquei pensando nisso por muito tempo até que me descobri perdidamente apaixonado por alguém. Sem ao menos compreender o sentido da paixão eu me encontrei de um jeito tão estranho que somente hoje eu sei que estava apaixonado. E descobri o que é "valer a pena" com o que realmente não valia pena nenhuma.

Aquela coisa louca de você olhar no espelho numa manhã cinzenta de quarta-feira - digo quarta-feira porque está longe das coisas boas de um final de semana passado e relativamente longe de um final de semana futuro, sorrir e dizer: hoje é o dia mais feliz da minha vida. Não é esse o problema, qualquer dia pode ser feliz para qualquer pessoa, mas em plena quarta-feira você dizer isso em frente a um espelho só porque tem a certeza de que vai ver aquela pessoa passando correndo em sua frente em uma exata hora do dia, céus, isso é realmente loucura. E para os experientes isso tem nome. É paixão.

Paixão é realmente um problema pelo simples fato de ser um pouco mais que o amor e um pouco menos que o amor. Entendeu? Pois bem, explico, paixão é volúpia, desejo ardente fulminante cortante profundo. Nos deixa loucos de tal forma a fazermos as piores insanidades para estar perto do ser. Epinefrina pura! Por isso mesmo e mais que o amor. Amor é doçura, serenidade, companheirismo, cumplicidade, coisa rara e consistente. Por isso mesmo que é menos que a paixão. Entendeu? Eu sei que não. Mas o objetivo é esse. Não existe explicação que justifique uma paixão, assim como não existe uma compreensão real de um amor verdadeiro.

Pois então, decidi me aventurar. Arrisquei tudo. Entreguei as chaves da minha vida nas mãos do meu amor. Conferi-lhe total liberdade. Ele poderia entrar e sair em minha vida sem pedir licença. Meu suor caia para alimentar esse amor. Meu dia era dedicado a ele. Por esse amor eu crucifiquei meus sonhos, meus caminhos, meus horizontes. Por esse amor eu dediquei meus valores, minha identidade. Eu fiz de tudo, e jamais neguei nada que meu amor me pedisse. Fechei os olhos completamente para tudo o que se referia a frase que me tornaria o sujeito passivo da oração: você é meu amor. Nem pensei nisso: olhei o céu em noite estrelada e vi uma estrela cadente. Tive a idéia de fazer um pedido: eu quero ser feliz com meu amor, obrigado Deus! A estrela, antes de cair, voltou e me disse: o pedido está errado, faça direito: eu quero que meu amor seja feliz comigo. O quê? Isso mesmo. Se já é teu amor, então tu és feliz, por que tens a quem amar, mas jamais serás feliz se não fores o amor de quem tu amas.

Naquela hora caí em si. Não valia. O quê? Não valia... não valia imaginar que quem batia na porta era meu amor e ao abrir ansioso encontrar o cobrador do aluguel; voltar decepcionado e esperar ansioso o próximo toque na porta. Não valia a dor de ficar horas sentado na praça esperando que meu amor passasse e me desse um sorriso; não valia ficar angustiado porque meu amor não fez o favor de vir ficar comigo na mais tenebrosa das noites de verão, quando esta se funde com o inverno provocando trovões e relâmpagos estonteantes. Não valia dormir tarde esperando o que nunca chegava e acordar cedo na esperança de que chegasse. Não valia. Não valia o sofrimento, não valia a angústia, não valia a indiferença, não valia a pena. Ai eu entendi o sentido do que não vale a pena.

Por mais que você goste, por mais que sinta calafrios ao se aproximar de seu amor, por mais que te deixe arrepiado o toque das suas mãos, o cheiro da sua pele, o som da sua voz; por mais que você acredite nas mentiras, que você sabe que são mentiras, porque no fundo você sabe que ele não gosta de você, que ele só está do seu lado porque você insiste, porque você oferece água para matar a sua sede, porque você tem as coisas que suprem suas necessidades básicas, você vai continuar sempre arriscando, sempre se deixando enganar por uma promessa vazia, por um cheque sem fundo, por uma esperança cadavérica sem a menor chance de ressurgir das cinzas como uma fenix.

Mas um dia uma estrela cadente vai voltar pra dizer que não vale a pena. Não vale sofrer por um amor não correspondido. Não vale entregar a chave de sua vida para um sentimento desconhecido. Não vale a pena. Você não vai querer tomar a chave de volta; você vai arrumar desculpas infinitas para acreditar que pode dar certo: mas no final das contas você vai acordar e perceber que não vale a pena. Este memento singular, quando todas as energias vão eclodir dentro de você e gerar uma sensação de empobrecimento interior, pode acontecer de duas maneiras: a tempo de você ver que está perdendo seus lances em um jogo de cartas marcadas e precisa reavê-las o quanto antes ou quando já não lhe restar nenhuma carta na manga e você descobrir que foi sempre o bobo da corte por gosto durante muito tempo.

De qualquer forma não será tarde de mais para rever as rédeas de sua vida. Você vai ficar muito triste por descobrir quanto tempo perdeu apostando em um amor impossível. Então eu aconselho que você faça uma faxina em sua casa ou em seu quarto. Pegue todas as coisas velhas e pouco importantes e jogue no lixo. Reorganize seu guarda-roupa, jogue fora os velhos frascos de perfume, quebre os cds velhos e coloque tudo novo, diferente. Depois tome um banho bem gostoso e com bastante espuma. Vista uma roupa que te deixe bem elegante e ponha um novo perfume. Saia de casa para fazer a coisa que você sempre quis fazer mas nunca fez para não desagradar a pessoa que você amava e faça com bastante gosto, convicta devoção. Lembre-se, não tenha pressa para viver uma outra paixão. A dor ainda vai estar acesa dentro de você, não tente afogá-la em um copo de pinga ou com uma outra pessoa, cuidado para não estar fazendo com ela o que fizeram a você. Então não se apresse pra voltar a amar, se apresse para viver, pra curtir, pra sentir o ar frio batendo no peito, pra ver a lua nascer ou o sol se pô, pra ver coisas diferentes e para ser diferente em alguns aspectos. Depois dessa mudança de atitude, coisas novas vão acontecer: uma hipótese pode ser que seu amor vai se dar conta de que você é realmente importante para ele ou então você vai descobrir que a pessoa que você achava que era seu amor realmente não fazia seu tipo. Assim você estará se dando uma nova chance de ser feliz sem dar bola para as coisas que realmente não valem a pena.

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